Ai de ti, Rio! (2)

Publicado em 10/03/2018 e atualizado em 09/03/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

Ai de ti, Rio! (2)

“A degradação da Segurança Pública, da Saúde e da Educação é apenas uma consequência das ideias da elite política que temos.” (José Sicsu, professor da Universidade Federal RJ) 

Em tempos idos, não tão distantes, era assim. Em tempos de agora, deploravelmente, não é mais assim. Nove entre cada dez brasileiros, talqualmente sucedia com as estrelas de cinema naquele reclame famoso da marca de sabonete, preferiam o Rio de Janeiro pra suas folganças turísticas. A linda, mui heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro exercia fascínio arrebatador na alma popular. A mineirada, então, nem se fala... 

Era um tal de passar férias na antiga capital à beira-mar plantada! Nada, em pedaço de chão algum, oferecia algo ligeiramente comparável: banhar-se nas praias, visitar o Corcovado e o Pão de Açúcar, assistir espetáculos de teatro revista, participar de caravanas pra ver jogo no Maracanã. Copacabana, a princesinha do mar da canção conhecida do Oiapoque ao Chuí, era o símbolo reluzente de prodígios narrados em verso e prosa. Uma senha para o sonhado acesso a cenário de mil e um encantos.

 

O imponente Vera Cruz, com suas confortáveis e disputadíssimas cabines duplas e poltronas individuais, representava traço de ligação viva, de esfuziante colorido humano, entre as Alterosas e a sedutora paragem de destino. A imagem de indescartável toque saudosista do trem lendário, carregando casais em lua de mel e um montão de gente ávida pra curtir as oferendas culturais, artísticas e recreativas guanabarinas, reaviva ainda, outro tipo de lembrança. Esta, de feição negativa, frustrante à beça. Naquele tempo em que o Vera Cruz circulava regularmente, o gerenciamento dos negócios públicos relacionados com a política de transportes ainda não havia sucumbido às desastradas e suspeitosas conveniências que, num dado instante, ordenaram, irresponsavelmente, o sucateamento global e irreversível do razoável sistema ferroviário então existente no país.

 

Com o advento de Brasília, o foco das atenções políticas obviamente deslocou-se. Mas a força de atração do Rio, como efervescente polo cultural e turístico, manteve-se incólume por bom período. As pessoas continuaram alugando ou adquirindo imóveis para temporadas nas areias fofas da emblemática Copacabana.

 

Era assim. Não é mais. O Rio não é mais aquele. Tantas as calamidades acumuladas em sucessivos (des)governos, que essas relembranças de momentos airosos são até de molde a arrancar no presente manifestações de incredulidade de uma pá de viventes que da vida carioca se habituaram, constrangidos, a travar contato cotidiano com as mazelas de toda sorte ruidosamente estampadas no noticiário nosso de cada dia. Desmandos administrativos atordoantes, inércia gerencial inimaginável, corrupção deslavada, despreparo técnico e burocrático geraram quadro perturbador. A violência urbana, alvo da intervenção, constitui um dos muitos desafios a serem enfrentados nesta fase de angustiante deterioração das coisas públicas no Rio de Janeiro.

 

Vários analistas dos acontecimentos políticos asseguram que o Rio não é, das grandes cidades brasileiras, a que ostenta maior índice de violência. É provável que a razão lhes assista nesse diagnóstico.  Mas, sendo o Rio o que é no panorama brasileiro, mostruário mais ostensivo, mundo afora, de nossa  realidade cultural, a intervenção na área da segurança pública, questionada com veemência por numerosos setores, parece haver logrado aprovação popular. A despeito da pesquisa encomendada ao Ibope ter sido telefônica, abrangendo pequeno contingente de consultas, é bastante razoável supor que a maioria das pessoas, de modo geral, se também ouvida, endossasse o mesmo ponto de vista dos mais de 80 por cento de cidadãos que se manifestaram favoráveis na pesquisa mencionada. Os sinais de fadiga e inconformismo com referência ao amontoado de problemas do Rio de Janeiro são notórios.

A intervenção processada, originária de um governo desacreditado a mais não poder, dá vaza a outras reflexões.

 

Cesar Vanucci - Jornalista ([email protected])