GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE FUNK “BEIJINHO NO OMBRO” (GREFBO)

Publicado em 02/04/2014 - ze-nario - Zé Nário

Há tempos que o samba vem sumindo do carnaval. Nos antigos desfiles das grandes cidades e do interior brasileiro o ritmo de origem africana dividia a preferência dos foliões com as marchinhas. Muitos sambas de enredo, cantados nos desfiles das escolas de samba cariocas, se tornaram sucessos nacionais, gravados por cantoras e cantores famosos. 

Por isso, tem gente que pensa que o ritmo nasceu no Rio de Janeiro, cidade que o popularizou e o transformou num produto de repercussão internacional. Mas o samba nasceu na Bahia, onde também nasceu, infelizmente, o axé e o “psirico-lepo-lepo”.

O Rio de Janeiro não inventou o samba, mas criou o funk carioca, livremente inspirado numa batida muito utilizada no sul dos Estados Unidos, chamada de “Miami bass”. E hoje em dia várias escolas de samba carioca fazem suas “paradinhas”, durante os desfiles, momentos em que intercalam batidas de funk no meio do ritmo acelerado do samba de enredo.

E ganham nota máxima por isso. Quer dizer, o funk já está institucionalizado nos sambas de enredo. Antes disso, há bastante tempo, alguns cantores cariocas já compunham seus “sambas-funks”. Como disse anteriormente, o samba foi criado na Bahia, em meados do século XIX e migrou para o Rio de Janeiro, onde se popularizou. É a expressão musical mais forte do Brasil, reconhecida em todo o mundo.

Mas a Bahia, em termos de criação musical, deveria ter parado no Tropicalismo, no final dos anos sessenta, de onde surgiram Caetano Veloso e Cia. Depois disso, só veio merda. O axé, com suas letras esdrúxulas e coreografias idiotas, é o exemplo maior. E, com o tempo, só vem piorando. Prova disso é o hit do último carnaval, o lep... Não ouso repetir isso... Eca!

Veja bem, não sou a favor de proibições, mas se tivessem proibido os baianos de inventar outras músicas e ritmos há quarenta anos, o mundo seria muito mais tranquilo. O mesmo poderia ser aplicado aos fanqueiros cariocas, só aos fanqueiros, anos atrás, antes de criarem o maldito ritmo.

Mas isso, pesarosamente, não ocorreu e esses novos ritmos estão atrapalhando as tradicionais escolas de samba. Com exceção dos famosos desfiles do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde corre muito dinheiro ilegal, do jogo do bicho e outras origens, a tradição do samba vem sofrendo para manter-se de pé. Na atualidade, os jovens só querem fanquear.

A solução, a meu ver, é a fundação de escolas de funk. Com isso eu acredito que haveria uma adesão em massa e os recursos necessários para um bom desfile seriam mais abundantes. Tudo seria “abundante”, né não? Neste ano já lançaram as “marchinhas-funk”. Pelo jeito já estamos a caminho da total desgraça musical. Vamos então imaginar uma “Escola de Funk” no Rio de Janeiro, com todos os seus destaques formados por artistas e figurões ligados ao ritmo.

Antes, é bom lembrar que os desfiles das escolas de samba normalmente obedecem a uma sequência: Comissão de frente, Carro abre-alas, Segunda alegoria, Ala das crianças, Terceira alegoria, Ala dos compositores, Quarta alegoria, Mestre-sala e porta-bandeira, Rainha da bateria, Bateria, Carro de som, Ala dos passistas, Quinta alegoria, Ala das baianas, Sexta alegoria, Tripés, Sétima alegoria e Velha guarda.

Na escola de funk vai ser um pouco diferente. Além de um “DJ” no carro de som, soltando o pancadão, poderíamos ter a mesma bateria, com os mesmos instrumentos. E a madrinha poderia ser a Tati Quebra-Barraco. O tema do desfile seria cantado no “funk de enredo”. Os enredos teriam temáticas afins, como: “As alegrias da mão-boba no baile funk da periferia”. Ou “Descendo até o chão-chão-chão na terra do Ricardão”. Ou ainda: “No baile funk da vizinha, sem cueca e sem calcinha”.

Abrindo o desfile teríamos, da mesma forma, a comissão de frente (poderia ser “Comissão de Funk”?) formada pelo Bonde do Tigrão e o Bonde do Faz Gostoso. No carro abre-alas viria o Bonde das Maravilhas e mais uns cinquenta figurantes fazendo o “quadradinho de oito”. Na sequência, em vez de mestre-sala e porta-bandeira, teríamos o mestre-do-passinho e a cachorra emplumada portando a bandeira da escola.

No lugar da ala das baianas, teríamos a ala das poderosas, devidamente purpurinadas. Destaque do carro alegórico: Anita. Logo depois poderia vir a ala das popuzudas. No destaque, a Valeska idem, dentro de uma gaiola. Pra fazer justiça teríamos também a ala das preparadas. Destaque: qualquer uma, desde que seja preparada, é claro!

A ala das mercenárias, com os peitos de fora e as partes íntimas também, viria a seguir. Como destaque, Marcelly do Bigode Grosso. Não pode faltar a ala das periguetes, espécie de funqueira muito popular e extremamente contagiosa. No destaque Vanessinha do Picachu.

A ala das glamorosas seria a próxima, tendo como destaque Juliana e as Fogosas. Deise da Injeção também poderia vir nessa ala, fantasiada de enfermeira sexy como destaque no carro alegórico do sex shop.

Na ala dos compositores poderiam se encaixados os homens do funk (já que não podem ser encaixotados). O famoso “cata-mocréia” Mr. Catra seria o destaque de chão. Buchecha viria no carro alegórico com uma camiseta com a inscrição “só love” no peito. Atrás dele, uma árvore cenográfica com duzentas periguetes dependuradas de cabeça pra baixo. O significado? Sei lá! Coisas do “carnavalesco-funkeiro”.

Saracoteando pelo asfalto, ainda na ala dos compositores, viriam os outros funkeiros cariocas (se o leitor quiser pular essa parte, fique à vontade): Dj Marlboro, Gorila e Preto , Jonathan Costa, José Fortuna, Mc Andinho,  Mc Babi, Mc Barriga, Mc Biju, MC Bill,  Mc Copinho, MC Créu, Mc Dodô, MC Duda do Marapé, Mc Felipe Boladão, Mc Fox, Mc Frank, Mc Jenny, Mcs Junior e Leonardo, Mc Koringa, Mc Leozinho, Mc Lon, Mc Luan, Mc Mágico, Mc Maiquinho, Mc Marcinho, Mc Martinho, Mc Metal, Mc Cego, Mc Pekeno,  MC Roba Cena,  MC Sapão, Mc Serginho, Mc Smith, Mc Tchesco,  Mc Tição, Mc Zoi De Gato, Mc’s Pikeno E Menor,  Naldo e outros, muitos outros mais (tá pior que latrina, que oportunidade de soltar uma bomba, hein?).

Meu Deus! Tenho que parar por aqui. Essa história dá “muito pano pra manga” e não dá pra abusar da paciência do leitor.

Mas, pera aí! Mais uma sugestão: acho que no meio do desfile a bateria da escola de funk vai ter que fazer uma paradinha e tocar um pouquinho de samba para as novas gerações conhecerem esse ritmo tão gostoso de antigamente, né não?

José Nário F. Silva - Muzambinho/MG