E (QUASE) TODOS VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE

Publicado em 26/08/2013 - ze-nario - Zé Nário

Ontem eu acordei saudosista e feliz. Gostei! Gostei tanto que briguei com minha mente para permanecer assim por, pelo menos, mais um dia. E consegui. Até hoje de manhã estava assim. Fiquei com saudades daquele tempo em que acreditava no mito do bom selvagem. Revirei meu passado e encontrei resquícios de uma tênue felicidade. Naqueles tempos imaginava que era possível viver assim permanentemente. 

Mas hoje pela manhã eu liguei a TV e me deparei com aquelas imagens que se repetiram desde o início da copa das confederações: um punhado de gente desfilando suas indistintas reinvindicações pelas ruas das grandes cidades e um punhadinho de gente, junto com os demais, jogando pedra na polícia, depredando imóveis e assaltando lojas. E aparecendo muito mais do que os outros. A violência se destacando entre as causas pretendidas e se tornando a causa principal dos protestos.

E a minha saudosa felicidade de bom selvagem honorário, ou ignorante satisfeito, ainda que tênue, foi-se embora. De vez. A realidade voltou e esfregou-se na minha cara. Lambuzou-me de violência e barbarismo. Indignou-me com suas facetas menos nobres. Assustou-me com seu obscurantismo.

Não estou conseguindo encaixar meu entendimento nessas manifestações que não acabam nunca e invariavelmente descambam para a violência. Mas, alertou-me um amigo, isto é a expressão mais pura da brasilidade. Fazemos festa para a seleção de futebol, estopim do início das manifestações, e acusamos de incompetente o prefeito, o deputado ou o vereador eleito há poucos dias. O mesmo político no qual votamos meses atrás. A incompetência, convenhamos, não seria nossa?

Nenhum político deixa de ser bom em poucos meses. Ou ele nunca prestou ou quem não presta somos nós, os eleitores que o escolhemos. Fica a impressão que na verdade o povo brasileiro ainda não sabe o que fazer com a democracia. Talvez isso seja herança cultural portuguesa, que durante quase a totalidade de sua história viveu sob regimes absolutistas.

Afinal, desde a independência do Brasil, em 1822, até o final da república velha, em 1930, todas as eleições existentes eram cabresteadas. Os eleitores votavam em quem os coronéis mandavam e já se sabia de antemão quais seriam os candidatos eleitos. E isso, definitivamente, não podia ser chamado de democracia.

Do final da república velha (1930) - que começou com forte influência militar - até os dias de hoje se passaram 83 anos. Desse total, 29 anos foram vividos sob regimes ditatoriais. De 1937 a 1945 durante o Estado Novo, a ditadura getulista. E de 1964 a 1985, durante a ditadura militar.

Assim sendo, nossa democracia é muito nova. Tem só 54 anos. E pelo visto, ainda não sabemos muito bem o que fazer com ela. Se assim fosse, não mais existiriam os políticos corruptos e desonestos. Eles seriam eliminados a cada eleição.

O povo não pode se esquecer de que os políticos, enquanto detentores de mandatos eletivos, são funcionários públicos. Por isso, tem a obrigação de prestar contas de suas atividades, continuamente. Em razão disso, devemos sempre votar nos candidatos mais próximos de nós, desde que honestos, que são os mais fáceis de ser fiscalizados.

Uma forma também efetiva de, presumivelmente, acabar com a farra dos mandatos intermináveis seria a extinção da reeleição em todos os níveis. Isso evitaria o carreirismo na política que, afinal, não deveria ser profissão. Mas aqui no Brasil, muitas vezes, a política, além de profissão torna-se feudo, transmitido de geração para geração de uma mesma família, com a apropriação indevida do que é público.

Na realidade, bastaria que trocássemos todos os eleitos a cada eleição, para que acontecesse um arejamento contínuo nas ideias e nas realizações políticas. Mas, como já disse, ainda não sabemos o que fazer com a democracia. Em razão disso, o povo protesta, mas continua votando nas mesmas figurinhas carimbadas.

Triste e curta conclusão: os problemas são continuamente perpetuados em razão, tão somente, da incompetência do povo que elege os políticos pensando em levar alguma vantagem pessoal. Por isso, tão cedo não sairemos do fundo da latrina. Ainda que Deus seja brasileiro e seu representante mais famoso, o Papa, nosso ilustre vizinho.

José Nário F. Silva (Muzambinho/MG)