ADUBANDO OS OUVIDOS

Publicado em 24/01/2016 - ze-nario - Da Redação

ADUBANDO OS OUVIDOS

Não é mais preciso que eu queira ouvir música. A todo instante tocam música para eu ouvir, sem que eu peça. Mesmo que não seja o meu desejo imediato. O carro que passa pela rua, o vizinho de baixo ou o de cima, o parquinho de diversões, o trenzinho da alegria. Todos insistem em tocar para mim uma música que eu não quero ouvir, ou seja, música de péssima qualidade.
O carro que passa pela rua toca um funk a todo volume, incitando todos a transgredirem, convidando-nos para a balada e até para orgias sexuais. O vizinho de baixo, o de cima ou o de frente, toca músicas variadas, de acordo com seus gostos ecléticos. Pode ser sertanejo de manhã, pagode à tarde e funk de noite. E pode ser tudo invertido no dia seguinte, em volume mais alto ainda. Nunca se sabe.
O parquinho de diversões, mesmo instalado a uma distância considerável, incomoda com suas animadas músicas “de parquinho”, misturando velhas canções (?) da Xuxa, da Banda Calypso, do Balão Mágico, do Amado Batista, da Banda Calcinha Preta e outras bem típicas.
O trenzinho da alegria, que consegue o prodígio de incomodar a cidade toda com sua barulheira infernal, sendo o mais absurdo deles, toca funk da pior qualidade para embalar o passeio das crianças. É completamente incompreensível que seja permitida uma aberração dessas.
Se querem incomodar a cidade toda, que seja pelo menos com música de qualidade. Principalmente porque as crianças não deveriam estar ouvindo Mister Catra – ou Valeska Popozuda - enquanto passeiam pela cidade sem cinto de segurança, correndo altos riscos em caso de um acidente.
O mais interessante é que se nós, pobres mortais que transitamos placidamente em outros veículos, formos flagrados circulando por aí sem cinto de segurança certamente teremos que pagar uma multa e ouvir um bom sermão do guarda. Mas o trenzinho da alegria coloca todos em risco e não é punido. Principalmente aqueles rapazes fantasiados de personagens de quadrinhos que ajudam a explorar as crianças e viajam de pé, agarrados à estrutura do veículo.
E assim, no meu cotidiano, tenho meus ouvidos adubados com essas excrecências que são chamadas de músicas. Merda da pior qualidade é distribuída abundantemente pelas ruas da cidade, despejada gratuitamente nos ouvidos de toda a população.
Isso explica, em parte, a evolução dos costumes e a razão de tantos descalabros. A degeneração é geral, cantada em prosa e verso pelos principais artistas populares. Aparentemente, não há como nos defendermos dessas agressões. E não há como proteger as crianças dessas más influências.
Parece que esses abusos já fazem parte do futuro das novas gerações. Será mesmo que não há o que fazer?
Veja bem, ultimamente até mesmo a irritante cantilena das cigarras, pelas árvores e postes da cidade durante a primavera, tem me parecido agradável em comparação com as músicas que nos obrigam a ouvir pelas ruas. É pena que as cigarras já tenham indo embora... Para meu desespero, só ficaram os outros ruídos irritantes, muito mais irritantes!