O tesouro escondido no brejo

Publicado em 16/12/2016 - vitor-hugo - Da Redação

O tesouro escondido no brejo

Se na sua propriedade tem um brejo, você tem uma riqueza de valor incalculável, que são as centenas de nascentes de água, ou seja, o brejo é um grande lençol de água que aflorou e formou uma nascente. A enorme variabilidade de espécies vegetais que constituem este ecossistema são nativas e peculiares, ou seja, só existem nos brejos e servem de abrigo para milhares de seres vivos, pássaros como saracuras, que se alimentam de moluscos e insetos que servem de alimentos para os sapos, pererecas e peixes, que por sua vez são alimentos para animais e répteis mantendo assim um equilíbrio perfeito e dinâmico. As ações humanas são bem vindas, desde que, sejam conscientes no sentido de restabelecer ou aumentar sua capacidade de reter água. A não ser em casos especiais, não há necessidade de plantar árvores, pois obter mudas das plantas nativas peculiares a cada ecossistema, não é uma tarefa fácil, basta proteger a nascente, cercar pessoas e animais e deixar que a natureza regenere as espécies vegetais, atraindo insetos como marimbondos, abelhas, vespas, besouros e uma infinidade de pequenos animais roedores e aves. O brejo é o abrigo, e refúgio para o acasalamento e reprodução de muitas aves e pequenos animais e local onde predadores e presas cumprem o milenar tarefa de preservação de suas espécies, o mesmo acontecendo com a flora específica dos brejos. No início da década de oitenta, o governo de Minas desfechou o famigerado programa do PROVARZEAS, que absurdamente pretendia drenar 30 milhões de hectares de várzeas e para felicidade geral dos sapos, pererecas, curiangos, preás e corujas, não deu certo, mas deixou sérios e irrecuperáveis danos, como a morte daquele santuário ecológico que era a foz do Rio Cabo Verde. Ecologicamente, drenar um brejo, traz maiores prejuízos do que cortar árvores, porque a árvore pode ser renovada, mas a nascente após esgotada jamais será recuperada. Fica aqui o nosso veemente apelo aos agricultores e meus colegas técnicos agrícolas, que façam uma profunda reflexão diante desta desabalada evolução e expansão tecnológica por que passa a humanidade. O mundo está ficando cada vez mais, competitivo e superlotado. A demanda por alimentos toma grandes dimensões, os desperdícios e a ganância por dinheiro também, enquanto se agigantam os vendedores de agrotóxicos. Não podemos deixar, como diz o ditado “a vaca ir pro brejo” nós é que temos que deixar a noite, o conforto da televisão e procurar o tesouro que está escondido no brejo, na excentricidade de sua flora, na riqueza de sua fauna, na sincronia melódica da orquestra de sapos e pererecas, e ainda no show de luzes dos vagalumes e pirilampos, como se as estrelas descessem na terra para compor o cenário. É assim que a natureza nos recebe, quando nos aproximamos dela, com lições de harmonia, beleza e sabedoria.

Vitor Hugo do Nascimento / Muzambinho
Técnico do Ex-IBC / [email protected]