O NOVO CANGAÇO VOLTA A ATACAR

Publicado em 30/09/2018 - policia - Da Redação

O NOVO CANGAÇO VOLTA A ATACAR

As regiões Sul e Sudoeste de Minas Gerais têm sofrido muito com a modalidade criminosa que ficou conhecida como “Novo Cangaço”. Que consiste de explosão de caixas eletrônicos e de cofres nas agências bancárias, que ganhou esse apelido pela forma violenta em que quadrilhas fortemente armadas, usando coletes a prova de balas e capuzes chegam e sitiam as cidades, neutralizando a ação das forças policiais, modus operandi muito semelhante aos cangaceiros que sitiaram o Nordeste brasileiro de 1824 a 1940, quando os últimos bandos de cangaceiros foram mortos, presos ou anistiados pelo então Presidente Getúlio Vargas. O nome de Virgulino Ferreira da Silva, o popular “Lampião”, se tornou o mais conhecido.   

Os criminosos que tem agido atualmente nessa modalidade encontraram no Sul e Sudoeste de Minas um terreno fértil para seus ataques, por ser uma região próspera e especialmente devido ao baixo efetivo policial, principalmente nas cidades com menos de 20 mil habitantes, onde comumente apenas 2 ou 3 policiais cuidam da segurança noturna da cidade. 

As quadrilhas são muito bem preparadas, utilizam armamento pesado e moderno, sofisticados equipamentos, veículos potentes e táticas de guerrilha urbana e rural. Nas quadrilhas de explosão em bancos, há divisão de tarefas de forma bem definida e organizada. 

No mundo do crime os indivíduos que tem a tarefa de quebrar as portas dos bancos, romper paredes, entre outros, abrindo caminho até os caixas eletrônicos e/ou cofres são chamados de “marretas”. Os indivíduos que tem a tarefa de instalar os explosivos são chamados de “detonadores”. Já os indivíduos que ficam do lado de fora das agências atirando a esmo para manter a Polícia e os curiosos à distância e também lançando “miguelitos” para furar os pneus das viaturas, são chamados de “escoras”.   

Na madrugada da última terça-feira, dia 25/09, a cidade de Machado vivenciou a atuação do “Novo Cangaço”, de maneira assustadora, tendo sido explodidos os cofres do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Muitos tiros foram disparados por cerca de 40 minutos, tendo havido intensa troca de tiros com a Polícia Militar e pessoas foram feitas reféns e usadas como escudo humano. Os criminosos atiraram contra lojas, contra uma Igreja Presbiteriana Independente e contra um posto policial, fugiram levando quantidade não divulgada de dinheiro por uma estrada rural que liga Machado a Serrania.

As autoridades não têm conseguido conter essa modalidade criminosa que parece não ter fim e tem deixado muitas cidades de nossa região sem serviços bancários por longos períodos. 

Além da modalidade de explosão, nossa região ainda tem sofrido muito com o seqüestro de gerentes de bancos e de suas famílias, modalidade criminosa que ficou conhecida como “sapatinho”.

 O Governo de Minas anunciou a compra de 40 carros blindados para tentar conter tais ataques, estando um veículo em fase de testes em Poços de Caldas, sendo que mais um tem sido aguardado. O Governo anunciou ainda como medida de combate, a lotação de ao menos 10 policiais militares em todas as cidades da região, por menores que sejam. Houve também a aquisição pelo Estado de submetralhadoras e fuzis, com o objetivo de que cada fração policial possa possuir ao menos uma submetralhadora e um fuzil. 

Todavia, percebe-se que os investimentos são muito tímidos frente o grande poderio das quadrilhas. Para se ter noção no Sul e no Sudoeste de Minas a Polícia Militar não possui nenhum helicóptero, que é uma ferramenta imprescindível para o combate a esse tipo de delito, inclusive por fazer divisa com o Estado de São Paulo, onde há grande poder por parte do crime organizado. 

Ao que se tem percebido o problema do “Novo Cangaço” ainda está bem longe de ter fim, como ocorreu com o antigo Cangaço, que só chegou ao fim com investimento maciço liderado pelo então presidente Getúlio Vargas, que determinou a criação de grandes expedições policiais denominadas Volantes e mandou importar diversas metralhadoras da Alemanha, o que se tinha de mais eficiente em armamento na época para por fim ao Cangaço, o que realmente aconteceu.

O crime se reinventa e se reorganiza fácil e rapidamente. As autoridades e as forças de segurança precisam de investimentos que lhes permitam combater o crime com maior agilidade e eficácia, uma vez que a curto prazo o problema parece não ter solução. 

Grande parte das quadrilhas que atuam no Sul e Sudoeste de Minas advém do Estado de São Paulo, o que demanda maior integração da Polícia Mineira com a Polícia Paulista, além de maciço investimento em serviço de inteligência, que ao que parece, não tem funcionado como necessário.

Mauro Gil Campos de Oliveira é advogado criminalista na cidade de Alterosa, é estudioso do tema “Novo Cangaço” e autor do livro “O Novo Cangaço no Sul de Minas”