O relâmpago do parágrafo

Publicado em 04/12/2017 - paulo-botelho - Da Redação

O relâmpago do parágrafo

Ao ler o E-mail que me foi enviado, semana passada, fiquei impressionado com a correção da linguagem tão bem estruturada e concisa. O remetente, João Alberto, é um funcionário do INSS que está começando a escrever um romance em suas horas vagas. Ele reclama da falta de tempo para se dedicar melhor ao projeto do livro; e me pede alguma orientação.

Bem, vamos lá!: O escritor para obter o reconhecimento dos leitores deve ter, como eixo central, conhecimento, senso de observação e recorrência do passado, além de imaginação. O romance deve criar um novo tempo para os leitores; e o romancista deve sempre sugerir que o passado precisa ser inventado para que o presente não morra em nossas mãos.

Tenho perdido o meu tempo lendo textos prolixos e saturados de vaidade pessoal só para demonstrar conhecimento. Tem, por aí, uma explosão de conhecimento duvidoso e uma implosão de verdadeiro significado.

O escritor Anthony Trollope viveu na Inglaterra no Século XIX e escreveu vários romances de sucesso. Ele trabalhava numa agência dos correios em Londres e escrevia por hobby. Mesmo assim ele não largou o emprego no correio. Acordava cedo todo dia, sentava-se à mesa e escrevia o que tinha pensado. Depois, saia para trabalhar. Sabe-se que Trollope foi um funcionário público competente e que chegou a ocupar uma alta posição no correio. Ele gostava muito do próprio trabalho e, por mais que o ofício da escrita tomasse o seu tempo, nem passou pela sua cabeça largar o emprego para dedicar-se somente à escrita.

Para uma boa escrita, é preciso produzir um bom parágrafo. – É o parágrafo e não a frase, a unidade básica da escrita; o lugar onde começa a coerência e onde as palavras têm a chance de se tornarem algo mais que apenas palavras.

Se a imaginação for obtida, será no nível do parágrafo. Palavras criam parágrafos; às vezes parágrafos dão sinal de vida e começam a respirar. Imaginemos, então, o monstro Frankenstein sobre a maca do laboratório: vem o relâmpago – não do céu – mas de um simples parágrafo!

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. Associado-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br