Não atire em leões

Publicado em 06/07/2017 - paulo-botelho - Da Redação

Não atire em leões

Foi em um modesto Café de Paris à Rue des Écoles – Quartier Latin – em setembro do ano passado. Não há Café em Paris sem uma boa conversa. No caso, a conversa não foi agradável, sequer elucidativa, pois os dois conversadores nada tinham em comum a não ser o Congo, um país saqueado sob todos os aspectos. Um dos conversadores, Hildebrando Bueno, é bem conhecido dos leitores; o outro, um médico belga, implacável caçador de leões no Congo.
Utilizando-se de um francês bem macarrônico, o médico passou a se exibir: “Eu atiro em leões a uma distância de 100 metros, pois, mesmo ferido, um leão pode percorrer mais de 100 metros em menos de 8 segundos”. – “Ah, mas, mesmo ferido, ele vai conseguir pegá-lo”, redargui Hildebrando. – E o médico prossegue: “É certo, se você atirar nele o tiro não pode pará-lo. Você tem que atirar com a precisão de um cirurgião fazendo mira no osso da perna dele para quebrá-la!”
O frágil e um tanto combalido estômago de Hildebrando começara a dar sinais de ânsia de vômito, tal a frieza do médico-cirurgião. Hildebrando Bueno andava um tanto quanto horrorizado pelo que presenciara no Congo, semanas antes daquela conversa no Café.
A Bélgica impôs ao Congo um dos regimes mais infames da história da humanidade. Além da matança de elefantes, leopardos e leões, tem, por lá, até hoje, a escravidão humana como prática ilimitada.
O país mais desgraçado do mundo não é o Haiti, mas o Congo. Apesar de tudo, no Haiti há experiências humanitárias que coexistem com os horrores vividos pelos haitianos. Já no Congo, a desumanidade tomou conta do país. A vida deles, com exceção de poucos, é muito dura. É um país potencialmente rico; dispões de muitos recursos que estão nas mãos de belgas e de pequenos exércitos de invasores. Usam mão-de-obra escrava para fazer funcionar umas cinco minas de diamantes do país. Nem sequer lhes dão o que comer.
Hildebrando não deixou que a conversa terminasse impune e disse: “Enquanto você estiver fazendo pose para a foto, com um pé sobre a cabeça do leão morto, a fêmea dele chega e o ataca rasgando-o pelo meio. – E a foto, lá para os seus, vai sair um tanto quanto desalinhada!”
O médico-matador-de-leões saiu da mesa sem pagar a sua parte na conta do Café. – É a “burrice siderúrgica” de que falava o dramaturgo Nelson Rodrigues: combinação de estupidez, ignorância e falta de consideração pelos outros.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. Associado-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br