A Viúva

Publicado em 14/09/2015 - paulo-botelho - Da Redação

A Viúva

Ivo viu a uva. Hildebrando viu a viúva. E que viúva: muito magra, esquálida e estropiada; uma trabalhadora rural de mãos calejadas, embora jovem e mãe de três filhos. Ela estava naquela tarde calorenta na agência do correio da pequena cidade com o cartão do Bolsa Família. Esperava, pacientemente, a sua vez de sacar o dinheiro. Hildebrando Bueno, que fora à mesma agência para despachar uma correspondência, pergunta a ela por que recebe só de dois filhos. – "É que o mais velho tem 12 anos e trabalha na marmoraria o dia inteiro e não estuda!" disse com frustração e tristeza. Hildebrando, "alter ego" deste escriba, então, raciocina: Não basta saber ler que Ivo viu a uva. É preciso compreender quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho. Se o pai do menino que trabalhara na mesma marmoraria e morrera por ingestão respiratória de Sílica (Sílica Livre = matéria prima das marmorarias), certamente, o menino terá o mesmo destino do pai. – "É a morte de que se morre, de velhice antes dos trinta e de fome um pouco por dia" já disse o poeta João Cabral de Melo Neto em "Morte e Vida Severina". "Ivo viu a uva", ensina o revolucionário Método de Alfabetização do pedagogo pernambucano Paulo Freire. Ivo não viu apenas com os olhos; viu também com a mente. O mundo desigual da viúva pode ser lido com os olhos do opressor e pelos olhos do oprimido. A viúva é a oprimida com seus filhos em sua pobreza infame!

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. www.paulobotelho.com.br