RENOVAÇÃO POLÍTICA AGORA SÓ PARA QUEM CRÊ EM PAPAI NOEL

Publicado em 20/07/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

RENOVAÇÃO POLÍTICA AGORA SÓ PARA QUEM CRÊ EM PAPAI NOEL

Se a desilusão com a política no Brasil já vem de longe, pior agora com o nosso fracasso na Copa do Mundo – não meu, nem dos ilustres leitores, mas dos futebolistas brasileiros na competição mundial. Não deveríamos ir para o “muro das lamentações”, porque muitos desses jogadores nem mesmo nos representavam. Não vou me utilizar de “fake news” das controversas redes sociais, porém uma situação não escapou das observações pessoais de quase todos nós: alguns atletas estiveram mais preocupados com o seu visual e a sua estética do que com o troféu revestido de ouro. Afinal de contas esse ouro em disputa seria “ouro de tolo”, pois, para a maioria dos nossos o que interessava mesmo era o ouro no bolso deles e não para emoldurar salas de troféus de entidades. Entretanto, preocupação com os cabelos e com a estética facial não foi um privilégio brasileiro na Copa do Mundo. Exemplo maior é daquele considerado o melhor jogador de futebol do planeta, Cristiano Ronaldo, todo ele um permanente “caras e bocas”, seja na seleção de Portugal, que também não deu em nada, seja no Real Madri, aonde ganhou uma fartura de títulos e, quem sabe, daqui prá frente, na Juventus, da capital italiana do automóvel – Turim – onde ele já aportou não como um intruso imigrante, mas, como um glorioso mercenário.

Também essa decepção brasileira com a política não é uma mazela nossa em função de “mensalão”, “mensalinho tucano mineiro” nem de Lava-Jato. Somente os mais desavisados, talvez os mais ingênuos, não tenham estudado a nossa história e nela feito reflexões racionais. Deve o leitor perceber que, por exemplo, existe uma poderosa bancada de deputados federais do agronegócio, exímia na engambelação dos diversos presidentes da República, que é uma continuidade dos grandes fazendeiros do Brasil agrário, os mesmos que deram o golpe de estado no Imperador Pedro II, conluiados com uma elite militar, por causa da liberdade concedida aos escravos através da Lei Áurea. Esses mesmos devem ter sido descendentes dos beneficiários das capitanias hereditárias, a raiz dos nossos latifúndios.

Propina e suborno vêm de longe. Ou nos esquecemos de que os índios eram passados para trás com espelhinhos e outros agradinhos de terceira categoria, novidades para os nossos silvícolas. Ou que diamantes e ouro fugiam do controle da Coroa portuguesa escondidos nos famosos “santos do pau oco”, uma expressão popular ainda usada para definir pessoas falsas e enganosas como o eram as tais imagens talhadas na madeira com esconderijos internos.

Nem por isso devemos nos culpar e nos entristecer. A desilusão com a política é um fenômeno internacional. Acontece na Itália, na Alemanha, na Espanha, nos Estados Unidos, na França, onde quer que seja. A voz conquistada por todos nas redes sociais trouxe para o cenário da vida as pessoas que, de certa forma, viviam encapsuladas no seu conforto e não se dispunham nem se atreviam a participar das amplas manifestações sociais. Muitas delas viviam a se lamuriar e a se queixar nos seus cantinhos, obtendo hoje um amplo espaço para os seus desabafos e suas posições, quase sempre pessimistas, muitas vezes revoltadas, pois imaginam que as transformações sociais vão acontecer no grito, num passe de mágica ou com violência, no entanto, não são essas as consequências imediatas conforme nos ensinam as lições da História: das cabeças que rolaram na Revolução Francesa; dos que tombaram vencidos diante dos pelotões de fuzilamento das ditaduras; nem dos que foram queimados vivos nas intolerantes fogueiras da Santa Inquisição. São atitudes impensadas e precipitadas dessas pessoas que devem estar inclinando o nosso mundo para o pessimismo e para a desilusão, pois as pessoas são incapazes de raciocinar o quanto avançou a humanidade em termos de conquistas materiais e nos direitos humanos e sociais. É tão fácil fazer essa medição. Basta olhar no retrovisor do tempo e enxergar até a época de nossos avós ou bisavós para se fazer essa constatação. A maioria verá e se lembrará o quanto era árduo ganhar a vida, estudar, ter assistência à saúde e ser ouvido nas comunidades de outrora.

Uma coisa é aparecer e fazer reivindicações no sugestivo “Brasil que eu quero”, da Rede Globo de TV. Outra coisa é votar, selecionando os mais aptos, os honestos. Mas, de repente, vão votar nas figuras que se fizeram presentes nas festas juninas do Nordeste; em quem deu condução para romarias festivas ou religiosas; para dirigentes ou jogadores, deste ou daquele clube de futebol; para os organizadores e patrocinadores, desta ou daquela festa interiorana; para religiosos oportunistas e nada conscientes politicamente, desta ou daquela religião. Assim, não se chegará a renovação alguma.

Mas, ainda é pior que o eleitor seja induzido a votar através da simples indicação de vereadores e prefeitos quando tais lideranças sabem que os candidatos por eles indicados não têm passado recomendável, envolvidos em comprovados escândalos, sob o pretexto e sob a salvaguarda de que são eles benfeitores das nossas cidades. Precisamos saber se esses benfeitores – muitas vezes de verdadeiras esmolas com o dinheiro público – são de fato pessoas limpas e não apenas amigos ou cúmplices desses vereadores ou prefeitos. Sempre se divulgou que os traficantes dos morros cariocas eram tidos como benfeitores das comunidades, pelas suas ajudas nas questões sociais, enquanto se tampava o sol com a peneira do quanto mal eles faziam, viciando pessoas nas drogas, causando tragédias pelas reações humanas à essa dependência química, além da mortandade nos conflitos das facções rivais. Não é admissível, por exemplo, que, além de benefícios para a sua cidade, um prefeito revele, num almoço com colegas, que, “independente de tudo, meu candidato a deputado federal é ...? (fulao)?...., pois, banca a faculdade do meu filho”. Isto eu ouvi de um dos prefeitos da AMOG, em um almoço que nos foi oferecido em determinado evento na cidade de Juruaia – eu era prefeito de Muzambinho, eu ouvi e bem me lembro (e acredito que continua a pedir votos para o tal, que é envolvido em processo de corrupção e escândalos). Cada vereador hoje é cabo eleitoral de um candidato a deputado estadual ou federal. Muitos recebem dinheiro polpudo para tais campanhas, enquanto que os eleitores que ele arrebanha ficam a chupar os dedos, mal sabendo que vai haver “sobras de campanha”.

Alguém duvida que políticos militantes, em mandatos recentes, flagrados com dinheiro sujo, tenham adeptos suficientes para elegê-los ou reelegê-los deputados, estaduais ou federais? Não existe o ditado que diz: “um gambá o outro cheira”? Por isso estou vaticinando que a gambazada elegerá os velhos gambás, ou novos gambás que ainda estão fora do mandato, mas ainda sequiosos de se reunirem ao bando.  Disso não tenho dúvidas. Então, deixem de sonhar com uma saudável  e total renovação dos nossos parlamentos. Aqui e acolá a renovação vai acontecer. Mas, não muito acima da média de sempre, que oscila entre 30% e 40%. Em breve vamos conferir que essas ninhadas também proliferam cá fora e mantêm os “consanguíneos” lá dentro.

 *Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)  - [email protected]