NO MUNDIAL DA GUERRA, ZERO A ZERO COREIA DO NORTE X EUA

Publicado em 15/06/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

NO MUNDIAL DA GUERRA, ZERO A ZERO COREIA DO NORTE X EUA

O surpreendente encontro entre o governante do país mais poderoso do mundo e o de um modesto país asiático acabou acontecendo. Por mais que desacreditassem os metidos a especialistas em política internacional, no campo neutro da cidade-estado de Cingapura, ocorreu esse encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un. Estados Unidos da América (EUA) e República Democrática Popular da Coreia (RDPC), ou Coreia do Norte, frente a frente com armas engatilhadas nos olhos e na língua. Ao contrário de quem imaginava ou torcia por faíscas, a civilidade prevaleceu. Para quem teve a oportunidade de acompanhar tais momentos ‘ao vivo e a cores’, tais momentos foram de desvelo entre dois contendores que antes se ameaçavam com bombas atômicas.

               Neste caso, refulgiu o carisma de Trump, que mostrou-se cordato, educado, em certos instantes conduzindo Kim Jong-un com a mão espalmada sobre o dorso dele e não com uma faca traiçoeira como desejariam aqueles de má índole. Por outro lado, o norte-coreano não chispava fogo pelos olhos e ventas, nem carregava um tridente, para os que o imaginavam o capeta, pois anos atrás, um antecessor do atual presidente dos EUA, Bush filho, definira esse país asiático como pertencente ao ‘eixo do mal’. Aliás, um apresentador de TV questionou o apelido de ‘baixinho ou gordinho do foguete’, dada a Kim pelo atual presidente norte-americano, em dias conflituosos, pois, lado a lado, a diferença na estampa entre ambos não parecia tão evidente, inclusive considerando-se que Trump tem entre 1,85m e 1,87m de altura. Quem sabe “o baixinho” esteja usando saltos altos, arriscou o correspondente da Globo na Ásia, Márcio Gomes, fato verdadeiro, mas, um aumento de apenas poucos centímetros. Certo é que ambos os governantes irradiaram carisma e postura de estadistas.

               Pouco haveria eu de acrescentar a tudo que tem sido mostrado pela mídia sobre o aperto de mão entre Trump e Kim, tendo ao fundo o colorido das muitas bandeiras norte-americanas e norte-coreanas, através de opiniões e imagens que circularam mundo afora pela televisão, internet e mesmo de maneira estática por jornais e revistas. As imagens valem muito como simbolismo da esperança na busca de um mundo de paz. Assim deve ser perseguida a harmonia entre homens e nações – com atos e atitudes – e não com tolas manifestações e passeatas com vestes e lenços brancos, como é comum se ver em cidades brasileiras.

               Neste espaço, gratuita e gentilmente concedidos a mim por este precioso jornal, busco fazer um contraponto de tudo aquilo que parece ser consensual na nossa sociedade, que é sempre engambelada e manipulada pela grande imprensa daqui e de todo o ocidente. No entanto, neste artigo, quero reconhecer a maneira profissional, independente e isenta como se comportou a equipe da ‘Globo News’ na longa transmissão desse momento histórico, a começar pelo citado Márcio Gomes e pelos comentaristas de política internacional da emissora, Marcelo Lins, aqui, e Guga Chacra, nos Estados Unidos. De todos, destoava como alguém que comeu e não gostou, Demétrio Magnoli, por demais conhecido como mensageiro do “deus mercado” e da sanha capitalista – pior do que ele somente o cínico Diogo Mainardi do domingueiro “Manhattan Connection”, programa que cito mas desprezo. No tocante aos tais contrapontos, aqui já me manifestei por três vezes, defendendo o lado norte-coreano: (1) Quem tem direito à bomba atômica? (1º-Jun-2009); (2) Viva à França? Ou viva à Coreia do Norte? (12-Mai-2017); e (3) Coreia do Norte manda mundo livre às favas (8-9-2017). Minhas divergências aí ficaram gravadas, mas, quero repetir uma frase do jurista e professor Sacha Calmon, de Belo Horizonte, contemporânea do meu artigo de 2009, transcrita do diário ‘Estado de Minas’: “Enquanto EUA, Rússia, França, Reino Unido, China, Israel, Índia e Paquistão, enfim todos os países que têm armas nucleares, não assinarem um tratado para a destruição dos seus arsenais, nenhum deles terá moral para impor vetos aos demais no fabrico de bombas atômicas”.

                 Ao final desta histórica reunião governamental de cúpula, pois ambos os países não se comunicavam desde a Guerra da Coreia (1951/53) foi divulgado o seguinte documento, contendo quatro pontos e assinado pelos dois mandatários:

     1º) EUA e RDPC se comprometem a estabelecer relações de acordo com o desejo dos seus povos, pela paz e prosperidade;

      2º) Os dois países irão unir seus esforços para construir um regime de paz estável e duradoura na Península Coreana;

      3º) Reafirmando a Declaração de Panmunjon, de 27 de abril de 2018, a RDPC se compromete a trabalhar em direção à desnuclearização da Península Coreana; e

       4º) Os EUA e RDPC se comprometem a recuperar os restos mortais de prisioneiros de guerra, incluindo a imediata repatriação daqueles já identificados.

                 Para os analistas foi um documento vago. Mas, assim se expressou o ex-astro do basquetebol americano, Dennis Rodman, considerado o elo deste encontro, pois tornou-se amigo em comum de Kim Jong-un desde 2013, quando jogou na RDPC pelo formidável time do Harlem Globetrotters, e de Donald Trump, quando participou de dois “reality shows”, apresentado então por Trump: “É um grande dia, estou muito feliz. Eu sabia que as coisas iam mudar, mas não tinha ninguém para me ouvir”.

                 Segundo o portal G1, Kim disse: “O mundo verá uma grande mudança”. Do outro lado Trump falou: “Aprendi que ele é um homem muito talentoso e muito ama o seu país”.
                  Porém, voltemos aos incrédulos fascistóides, os que esperavam que o mais forte impusesse de supetão suas garras contra o mais fraco, embora lembrando ser este um novo detentor de bombas atômicas. Torceram tanto contra o êxito dessa reunião, porque têm ódio pela ideologia comunista norte-coreana. Nada foi tão explícito como os comentários negativistas do citado Demétrio Magnoli, que sentiu-se tão vexado como todos nos sentimos com os 7x1 da Alemanha sobre o Brasil, na Copa do Mundo de 2014. Então, ele foi repetitivo ao afirmar que os EUA levaram goleada pior da Coreia do Norte, 7x0, pois nada foi positivo para os Estados Unidos. Falsa conclusão. Realmente, o Documento Final não diz lá muitas coisas. No entanto, foi melhor esse empate de 0x0, que significa algum tempo mais para o diálogo e para o afastamento da ameaça de um conflito nuclear.

Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]