MINAS GERAIS REINA NO VOLEIBOL NACIONAL

Publicado em 11/05/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

MINAS GERAIS REINA NO VOLEIBOL NACIONAL

 Não tenho como me esquecer do saudoso apresentador e narrador esportivo, Luciano do Valle, um ícone da televisão brasileira, que atuou na Globo, na Record e na Bandeirantes. Nascido em Campinas-SP, principiou sua carreira de narrador esportivo como radialista das campineiras Rádio Educadora, hoje Bandeirantes, e Rádio Brasil. Polivalente, fez célebres transmissões em modalidades como futebol, basquetebol, automobilismo, voleibol e box, sem me omitir dos jogos olímpicos nos quais essa polivalência foi por demais exercitada, havendo ele feito a cobertura de várias Olímpiadas a partir de 1972. No afã de reavivar minha memória, transitei pela Wikipédia e pelo Terceiro Tempo/Que Fim Levou? do nosso polêmico conterrâneo Milton Neves para a devida checagem de alguns itens que me remeteram ao fabuloso Luciano do Valle e ao assunto em tela.

Assim sendo, nossa coluna de hoje faz uma exaltação ao voleibol, especialmente a esse esporte praticado em Minas Gerais. Neste jogo de quadra, Luciano do Valle é merecedor de mais louvores, porquanto não somente as suas transmissões pela TV, mas o seu indubitável incentivo, alavancaram o voleibol brasileiro.

Gente da minha idade nunca se esqueceria das intensas emoções por ele depositadas nos sextetos brasileiros dos tempos do antigo William, de Bernard, Montanaro, Xandó, Amauri, Cacau, dos ex e atual técnicos do Brasil, Bernardinho e Renan Dal Zoto, então jogadores. Quem, como nós, se esqueceria de um jogo dessa modalidade, por ele promovido e realizado em pleno estádio de futebol do Maracanã, numa quadra improvisada com tablado e carpete, em 1983, prestigiado por um público superior a 90 mil pessoas, diante da quase imbatível União Soviética, numa época em que os ‘sets’ eram de 15 pontos, acrescidos de intermináveis rodízios que poderiam se equivaler a ‘sets’ de mais de 30 ou 40 pontos? Pois bem, tal escrete veio a conquistar a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, no ano seguinte, um feito de arrepiar, muito embora a perda do ouro para os dono da casa, Estados Unidos, tenha se convertido numa incompreensível frustração. No entanto, foi por aí a semente de futuras conquistas olímpicas, de superligas e mundiais.

Bem antes disso, o voleibol brasileiro não passava de acanhadas competições estaduais e à Taça Brasil, restrita a clubes do eixo Rio-São Paulo-Minas, formando-se precários selecionados nacionais, onde nosso papel no cenário mundial era de coadjuvante. Em histórico oficial, constatei a evolução, tanto no masculino como no feminino, a partir da criação de uma Liga Nacional nos idos de 1988/89 e, mais à frente, a organização em torno de uma Superliga. Embora não tenha eu conseguido delimitar o marco inicial dessa expansão do voleibol brasileiro, dá para assegurar que o histórico fala que cumprimos na última temporada 40 edições, pois relacionam os campeões anuais e os segundos colocados tanto por clubes como por estados desde 1976/1978/1980 e, seguindo-se, anualmente. Houve um certo período em que ainda prevaleciam clubes tradicionais, em ambos os gêneros, tais como Fluminense, Flamengo, Botafogo, Paulistano, Minas Tênis Clube. No começo da década de 1980 aparecem os primeiros campeões denominados por marcas famosas como os times da Pirelli, da Supergasbrás e do Banespa. Numa cronologia um pouco mais à frente, clubes se associam a grandes patrocinadores, dado o prestígio que foi alcançado pelo vôlei pátrio, surgindo o Telemig/Minas, o Cimed/Florianópolis, o Brasil Kirin, de Campinas, o Frangossul/Ginástica do Rio Grande do Sul, o Leite Moça/Sorocaba-SP e tantos outros até os dias atuais.

Como curiosidade ou conhecimento para os interessados transcrevo desse histórico os campeões por estados, nessas 40 temporadas, sendo que estas passaram a acompanhar o calendário mundial, a partir de 1988, ou seja, começam no 2º semestre de cada ano e terminam nos primeiros meses do ano seguinte. Vejamos: Voleibol Feminino/ clubes campeões por estado = RJ (20); SP (15); MG (3) e PR (2); Total (40) – Voleibol Masculino = SP (15); MG (13); SC (5); RS (4); RJ (3); Total (40). A temporada 1917/1918, ora encerrada, deu os seguintes pódios: Voleibol Feminino = medalha de ouro, Dentil/ Praia Clube, de Uberlândia-MG; medalha de prata, Sesc/Rio de Janeiro; medalha de bronze, Camponesa/Minas Tênis Clube, de Belo Horizonte; Voleibol Masculino = medalha de ouro, SADA/Cruzeiro, de Betim-MG/Contagem-MG; medalha de prata, SESI/São Paulo/Vila Leopoldina; medalha de bronze, SESC/Rio de Janeiro.

Para os torcedores bairristas, como eu, que acompanharam a finda temporada de 2017/2018, só temos a regozijar, pois no gênero feminino do esporte em questão, Minas Gerais foi pródiga ao trazer de volta o tradicional Minas Tênis Clube para o pódio, na terceira colocação, e conquistar título de campeão pelo Praia Clube, da pujante Uberlândia, uma cidade de quase 700.000 habitantes. O clube tem feito altos investimentos na montagem e manutenção do seu sexteto profissional. Os resultados superlativos chegaram com a medalha de ouro pela 1ª vez, através da repatriação de Fernanda Garay, que estava jogando na Rússia, e na contratação de Fabiana e Waleuscas, as três do escrete nacional, além da americana Fawcet, titular dos Estados Unidos, bem como segurando de temporadas passadas a levantadora Claudinha, a Natasha e a Helen. O Praia jogou sempre as fases de ‘mata-mata’ com a vantagem obtida como 1º colocado na longa fase de classificação, onde havia outras onze equipes e os jogos eram de ida e volta. No masculino, o SADA/Cruzeiro esbanjou categoria e confiança diante da hegemonia que arrebanhou em terras nacionais e estrangeiras. Fundado em 2006, na cidade de Betim, o voleibol do Cruzeiro sempre teve o apoio financeiro da SADA, a transportadora de veículos da FIAT, cujo dono é Vitório Medioli, um ítalo-brasileiro que é prefeito de Betim e ex-deputado federal, também dono da cadeia de jornais “O Tempo” e do tablóide Super.

Não se mede o conjunto cruzeirense somente pelo apoio financeiro da Sada, que lhe permite manter um técnico argentino, Marcelo Mendez, há 9 anos, e um supertime composto por dois cubanos – o ponteiro Leal, defendendo o clube na sexta temporada e Simon, no 2º ano –, e um argentino, o levantador Uriarte (que veio em substituição a William, o Mago, que retornou à terra natal e joga pelo SESI-SP, filho de um dos mortos no acidente do avião da TAM, que caiu anos atrás em um bairro de São Paulo, logo após a decolagem). O elenco titular ainda conta com o líbero Serginho e o ponteiro Felipe, ambos no time por seguidos 8 anos, mais o oposto Evandro, há 2 anos, e o central Izac, convocado por Renan Dal Pozo para a seleção brasileira nesta semana, na 5ª temporada no time celeste. Outros fatores, que não o dinheiro, mantêm um elenco junto por tanto tempo e que não se ressentiu da saída de Wiliam/SESI e Wallace/Taubaté. O clube mantem escolinhas de voleibol no seu centro social de Betim e no ginásio poliesportivo do bairro Riacho, em Contagem, de onde saiu seu campeão Rodriguinho, convocado nesta semana para a seleção do Brasil. Certo é que o CRUZEIRO/SADA tornou-se hexacampeão brasileiro, sendo 5 títulos consecutivos (o Minas Tênis já ganhou 7 vezes nestas 40 edições), é tricampeão mundial e tetra da América do Sul.

O voleibol masculino do Cruzeiro permanece num longo reinado dentro e fora das fronteiras brasileiras. Na decisão do título com o SESI-SP ganhou por 3 ‘sets’ a 2 tanto em São Paulo como no Mineirinho, evitando o tal ‘golden set’ ou ‘set extra’ no domingo passado. Se o dinheiro do forte empresariado paulista, através da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – “e seu PATO INFLÁVEL”, patrocinou e derrubou a Presidente Dilma Roussef, NÃO conseguiu agora, como dona do SESI-SP, derrubar este poderoso esquadrão latino americano composto por dois cubanos, um comandante e um atleta argentinos, mais brasileiros, todos esbanjando gana e fibra, que integram o supercampeão SADA/CRUZEIRO. Viva Minas Gerais!


*O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) - marco,[email protected]