JULGUE SUA PRÓPRIA SABEDORIA POLÍTICA PELAS CRISES ECONÔMICAS MUNDIAIS

Publicado em 06/09/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

JULGUE SUA PRÓPRIA SABEDORIA POLÍTICA PELAS CRISES ECONÔMICAS MUNDIAIS

Não quero aqui me passar por professor, economista ou psicólogo, mas, estive a refletir que poderia caminhar junto com os diletos leitores num joguinho parecido com esses de revistinhas de passatempo, que nos distraem e nos informam através de palavras cruzadas, labirintos ou pegadinhas. Nesse exercício lúdico, o participante faria uma avaliação do seu grau de conhecimento da política mundial, ajudando-o na percepção da nacional, ao mesmo tempo que vai aprendendo a livrar-se da manipulação da mídia – rádio, televisão, jornal, revista ou internet. Muitas vezes tenho me referido aos interesses da grande imprensa, mas, não podemos ignorar que também a pequena, incluindo umas aparentemente inofensivas e pouco conhecidas plataformas digitais – todas – podem se enquadrar nas deploráveis categorias de “vendidas ou compradas”. Nisto se enquadrariam as mídias que priorizam o poder ou o dinheiro acima do isento e verdadeiro sentido de apenas informar e tendo como fonte de renda apenas seus patrocinadores e os assinantes.

                   Comecemos pela crise econômica de 2008, nascida nos Estados Unidos da América com a denominação de bolha imobiliária, que simplificaríamos como a facilitação e a multiplicação de financiamentos de imóveis sem as devidas garantias, a expectativa de lucro fácil, redundando na implosão dos negócios e atingindo, num primeiro momento, bancos, corretores, proprietários e seguradoras; em seguida a retração no comércio, na indústria e nos serviços, propagando-se mundialmente pela queda nas mais diversas bolsas de valores.

                   Para se chegar na tal crise a entrada no labirinto tem de passar pelo capitalismo ou pelo socialismo, que são definidos a seguir. Conforme a Enciclopédia e Dicionário Koogan/Houaiss, “o capitalismo é um sistema de produção cujos fundamentos são a empresa privada e a liberdade do mercado / Na terminologia marxista, é um regime econômico, político e social que procura sistematicamente a mais-valia graças à exploração dos trabalhadores pelos proprietários dos meios de produção e troca”. Acrescento: baseia-se no liberalismo econômico desenvolvido por Adam Smith. Mais, ainda: no tomo nº9 da Grande Enciclopédia Delta Larousse, edição 1972, distinguimos: “Liberalismo – doutrina que preconiza a liberdade no campo político e econômico *Politica – doutrina que pretende estabelecer a liberdade dos indivíduos em relação ao Estado [...] o liberalismo também preconiza oportunidades iguais para todos, independente do nascimento em determinada classe. O berço desse liberalismo político é a Inglaterra, onde a Revolução de 1688 estabeleceu a garantia dos direitos individuais. Na França, a partir da Revolução de 1789, o liberalismo conseguiu a igualdade de oportunidades abolindo os privilégios da aristocracia. [...] Na segunda metade do século XIX o liberalismo político confundiu-se cada vez mais com o liberalismo econômico. No século XX, enfim, o liberalismo tem sido freado por sua encampação por partidos de direita”. Já o socialismo, no verbete de Houaiss – que foi militante do Partido Socialista Brasileiro – é “denominação de diversas doutrinas econômicas, sociais e políticas que têm como denominador comum a condenação da propriedade privada dos meios de produção e de intercâmbio comercial – À base do socialismo, encontra-se a denúncia das desigualdades sociais”. Como consta do dicionário, há diversas teorias de socialismo, como o utópico, o democrático de François Miterrand (França), de Mário Soares (Portugal) e de Felipe González (Espanha) ou o chamado socialismo real, que foi aplicado na União Soviética, difundido como comunismo, ou ainda, o chamado socialismo de mercado em vigor na República Popular da China. São diferentes os modos de intervenção na propriedade privada dos meios de produção e trocas comerciais, variando de um intervencionismo estatal, de uma gestão associacionista, tipo cooperativas, até o socialismo científico proposto por Karl Marx e Engels.

                    Pois bem, o liberalismo e a sua versão mais selvagem e moderna – o neoliberalismo – condenam quaisquer intervenções estatais na economia. Mas, quais foram os mecanismos de combate à crise econômica de 2008, nos Estados Unidos?

                    Quero destacar essa resposta compilando trechos do trabalho de Rhaissa Pagot e Emmanuel Brandolff Jardim, “Os BRICS frente aos Estados Unidos após a crise financeira de 2008: alternativa a uma hegemonia declinante?”, in Textos de Economia, Florianópolis, v.17, nº2, pgs.135/138, jul-dez/2014. Primeiramente, com a citação de Hobsbawm, 1995: “o neoliberalismo pregava a ausência do Estado nas atividades econômicas”. Continuamos com os autores: “O colapso do comunismo (1991) acirrou o processo de globalização produtiva, financeira, tecnológica, de pessoas e de informações, o que foi visto como auspicioso por renomados economistas, pois dessa maneira entrar-se-ia em uma nova e duradoura fase de prosperidade. As crises financeiras que aconteceram ao longo do decênio foram a base de questionamentos sobre esse otimismo alardeado. O maior fluxo de capitais internacionais deu margem a ataques especulativos contra moedas de vários países (Krugman, 2009). As crises cambiais daí derivadas, logo após tornaram-se crises políticas, econômicas e sociais como a crise no México (1994/95), no Sudeste Asiático (1997), Rússia (1998) e no Brasil, em 1999 (Souza, 2009). [...] A especulação em ‘Wall Street’ ganhou força no final do mesmo decênio fazendo com que as ações de empresas voltadas ao setor da alta tecnologia (como os setores da computação e internet) valorizassem artificialmente. O índice Nasdaq, que mede o valor das ações das empresas desse ramo, chegou a subir 70% do final de 1999 até março de 2.000. Tal aumento exacerbado no preço das ações ficou conhecido como ‘bolha da informática ou bolha pontocom (Krugman, 2009) [...] houve o estouro da bolha especulativa e o índice Nasdaq entrou em forte queda – 62% nos 12 meses seguintes.[...] Ao preferirem os títulos do Tesouro americano, mais rentáveis com a alta dos juros, os investidores financeiros levaram à pulverização de uma riqueza no valor de U$5 trilhões (cinco trilhões de dólares, segundo Souza, 2009) [...} Uma nova onda especulativa teve início após a “crise ponto.com”, quando o presidente norte-americano, George W. Bush, passou a promover uma política de incentivos à aquisição de imóveis. O problema disso foi a concessão de empréstimos hipotecários a clientes que, perceptivelmente, não teriam condições de honrar as suas dívidas, os clientes ‘subprime’. [...] Se somados os valores anuais das hipotecas entre 2001 e 2006, chegar-se-ia ao considerável montante de 2,5 trilhões de dólares (Coggiola, 2012) [...] O estouro da ‘bolha imobiliária’ começou a tomar forma em 2006. Quando a bolha começou a estourar, em virtude da inadimplência, houve tomada dos imóveis pelos bancos, queda no valor dos imóveis, desvalorização das hipotecas e respectivos derivativos, crise no sistema bancário e encurtamento do crédito (Souza, 2009, pg.238) [...] os Estados foram chamados para atuar de forma coordenada e salvar as instituições bancárias que haviam sido responsáveis pela criação e estouro da bolha imobiliária (Beluzzo, 2009) [...] O governo Bush, tão logo deu-se a falência do Banco Lehman Brothers, negociou um pacote de 850 bilhões de dólares, sendo que, desse valor, 700 bilhões para a compra de títulos tóxicos (=podres) e U$150 bilhões para isenções fiscais. No final de 2008, as três principais companhias automobilísticas dos Estados Unidos – General Motors (GM), Ford e Chrysler – pediram U$34 bilhões ao Governo. No início de 2009, a Chrysler pediu concordata ao que a italiana FIAT assumiu seu controle parcial. A GM foi estatizada. A taxa de desemprego chegou a 8,9% em abril de 2009 contra 4,5% em 2007 (Souza, 2009). QUER O LEITOR MAIOR CONTRADIÇÃO NESSE NEOLIBERALISMO DO QUE O INTERVENCIONISMO ESTATAL DESCRITO??? MAS, ESTA NÃO É A RECEITA PARA OS PAÍSES POBRES, MORMENTE O QUE FOI FEITO NO ESPLENDOR DO NEOLIBERALISMO POR MENEM, NA ARGENTINA, POR FUJIMORI, NO PERU, E POR FERNANDO HENRIQUE, NO BRASIL. NAQUELA ÉPOCA A ORDEM QUE NOS FOI DADA PELOS DONOS DO MUNDO ERA VENDER TUDO, ARROCHAR OS SALÁRIOS E AUMENTAR IMPOSTOS

                    Isto posto, resta-nos a comparação para os dias de hoje entre Argentina e Venezuela Nossos “hermanos” colocam-se de joelhos diante do FMI – Fundo Monetário Internacional – buscando um empréstimo de 50 bilhões de dólares, labirinto do qual saiu o Brasil com o presidente Lula, que pagou antiga dívida brasileira para essa instituição financeira de rapinagem internacional. O presidente Mauricio Macri se vê “encurralado pelos mercados”, conforme manchete do jornal espanhol “El País”, em sua edição internacional do último dia 2, obrigado a fazer um ajuste fiscal, cortando gastos e aumentando impostos. Justamente ele que foi badalado pela imprensa conservadora como um novo gênio a governar a Argentina, enquanto passavam o rodo em Néstor Kirchner e Cristina Kirchner, que o antecederam e promoveram produtivas políticas sociais, sempre condenadas pelo capitalismo insensível e desumano.

                        Mas, quem apanha com a crise é a Venezuela. Claro está que a situação por lá anda péssima, produzindo levas e levas de migrantes para o Peru, Colombia e Brasil. O bolivarianismo claudicou sob a batuta de Nicolás Maduro, que nunca esteve à altura do seu criador e antecessor, Hugo Chávez. Mas, não pense o leitor que a inflação e o desabastecimento de gêneros alimentícios é somente um fracasso do governo de Maduro. Existe toda uma estratégia das elites venezuelanas, em conluio com o capitalismo internacional, de fomentar o quanto pior para o povo e governo, melhor para as elites. Não dá para esquecer que o primeiro governo socialista, eleito democraticamente, na América do Sul, foi o de Salvador Allende, no Chile. Ele foi derrubado pelas mesmas elites conservadoras e reacionárias, através do golpe de Estado do sanguinário Augusto Pinochet, tudo começando com uma interminável greve de caminhoneiros, principalmente de empresários de transporte, levando o país ao desabastecimento de alimentos, conturbando o Chile e criando clima para a intervenção militar, indubitavelmente, com o apoio dos Estados Unidos.

                      O caso da Venezuela difere da Argentina a começar pela economia diversificada dos portenhos. Já a Venezuela, que hoje ultrapassou a Arábia Saudita como detentora da maior reserva petrolífera mundial (296 bilhões de barris contra 294), depende muito desta “commodity” e tem desenvolvido uma política equivocada para o petróleo. Para piorar o preço do barril do óleo crú despencou de mais de 100 dólares dos tempos de Chávez para menos de 20 dólares no governo do menos hábil Maduro, somente agora subindo para mais de 30 dólares. Quanto à inflação em torno de 1.000 % ao ano saiu do controle e da média a que estavam habituados, pois Chavez a herdara elevada, reduzindo-a pela metade, em torno de 20%. Quero crer que o regime venezuelano ainda não tenha caído porque é predominantemente formado por militares e porque teve um período de prosperidade e de diminuição da pobreza com Hugo Chávez até os primeiros meses do seu sucessor, pois, politicamente, perdeu o controle do parlamento, e principalmente da economia.

                       Se o caro leitor forma a sua opinião política, econômica e social através do que ouve, lê e vê nos mais destacados e famosos canais de TV, nos maiores jornais e revistas impressos e ‘on line’, do Brasil e do Mundo, sem que busque meios alternativos, ou que se capacite para analisar o noticiário do dia a dia, certamente que não dará conta de encontrar a saída desse joguinho labiríntico e será enganado pelos políticos velhacos, em todas as eleições democráticas.

Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) -  [email protected]