JOGOS DE GUERRA

Publicado em 20/04/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

JOGOS DE GUERRA

Não há como fugir da constatação do quanto as grandes potências mundiais usam e abusam dos pequenos países. Nada difícil de verificar que consolidada a hegemonia norte-americana no mundo ocidental, finda a II Grande Guerra, o modelo capitalista praticado e exibido pelos Estados Unidos da América – EUA – ultrapassou as aspirações da mãe Grã-Bretanha, deixando para trás outros europeus colonialistas, como franceses e holandeses, e bem mais na rabeira os perdulários espanhóis e portugueses, cujas monarquias dão-nos a impressão de haverem derretido e deixado evaporar todo o ouro e prata roubados do Novo Mundo, principalmente à custa do extermínio dos povos maias, astecas e incas, violência da qual também não escaparam os indígenas brasileiros.

 Felizmente, no século passado, a América hegemônica e belicosa se deparou com a antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – um opositor à altura, que durante muitos anos embargou seus intentos de domínio e desmandos. Por outro lado, os soviéticos também foram freados pelos americanos dentro dos mesmos objetivos imperialistas. Foram longos e tensos os anos da Guerra Fria, convivendo num mundo bipolar.

Em 1991, o império soviético sucumbiu ante à diversidade das quinze repúblicas federadas que, originalmente, o compuseram mais a Europa Oriental que lhe fora acrescida, a partir de uma separação imaginária denominada “cortina de ferro”, nos quais tornaram-se “satélites” da URSS: a parte oriental da Alemanha, Polônia, Romênia, Bulgária, Iugoslávia, Albânia, Hungria e Tchecoslováquia. Essa porção europeia foi uma compensação recebida em 1945, através das conferências de Yalta e Postdam, fruto do proeminente papel do Exército Vermelho no combate ao nazismo, na II Grande Guerra Mundial. Sucumbiu também ante o exemplo e a sedução de uma minoria rica, seja de pessoas ou países.

No entanto, outro gigante comunista, com outros métodos, despontava a partir de 1949 – a República Popular da China, proclamada e consolidada por Mao Tsé Tung – prosseguindo a tendência de equilíbrio mundial que chega aos dias atuais.

A queda da URSS foi habilmente construída por Mikhail Gorbachev, sem derramamento de sangue, diante da concorrência de muitos fatores, retornando a Rússia aos seus antigos limites territoriais e incorporada à economia de mercado. Boris Yeltsin estimulando um novo modelo econômico. Nos seus frequentes momentos de delírio alcoólico, prosperou o novo e desenfreado capitalismo, que trouxe de volta a corrupção e as dificuldades dos tempos do czarismo. No entanto, ressurge a Rússia das cinzas soviéticas, sob o comando de um antigo agente da temível KGB comunista, Vladmir Putin. Ele passa a alternar o poder presidencial e de primeiro-ministro com Dmitri Medvedev, ambos restaurando a dignidade e o orgulho nacional, contrapondo-se aos desejos frustrados de um planeta unipolar ambicionado pelo hipócrita “mundo livre”.     

Semana passada, aliados ocidentais integrados pelos EUA, governado por Donald Trump; Reino Unido, da Primeira-Ministra Tereza May; e França, do Presidente Emmanuelle Macron, promoveram um ataque militar à Síria, contrariando resolução da ONU – Organização das Nações Unidas – e sem autorização dos respectivos parlamentos, numa insofismável afronta ao que eles apregoam aos outros – a democracia. O pretexto foi o uso de gases químicos letais, supostamente, por parte do governo sírio, na cidade de Douma, dentro do contexto de uma guerra civil que assola esse país há sete anos. Neste período, o saldo estimado é de 500 mil mortos, a maioria pertencente à população civil. Essa insurreição contra o ditador Bashar Al-Assad se iniciou dentro da chamada “Primavera Árabe”, estimulada na surdina pelos EUA e seus aliados, depois abertamente com armas e ações militares em apoio aos rebeldes, porém, tendo como pano de fundo o combate ao fanático Estado Islâmico ou ISIS, na sigla inglesa.

Questiona-se por todo o mundo: por que a pressa desse bombardeio antes de uma perícia por parte de uma comissão da ONU, que estava em preparativos para deslocamento até a Síria? Como apontar a culpa para o governo de Bashar Al-Assad se várias facções participam dessa guerra civil e também podem ser incriminadas? Não poderia ser um ato proposital dos próprios rebeldes que lutam contra Assad, justamente para incriminá-lo e justificarem essa intervenção estrangeira despropositada?  Por que Bashar Al-Assad, num momento em que voltou a recuperar grande parte do território sírio, iria cometer esse desatino, dando motivos de retaliação para os Estados Unidos, Israel, Reino Unido e outros?  Como falar, agora, que a Síria e sua aliada, a Rússia, tiveram estes últimos dias para dar fim nos armamentos químicos, se os principais danos no cenário das armas químicas foram os próprios bombardeios por parte de EUA, França e Inglaterra, com a utilização de aviões militares e mais de uma centena de mísseis? Esse cenário e essas acusações também serviram de pretexto para a invasão e o aniquilamento do Iraque e jamais foi encontrado arsenal químico.  Por que uma minoria de rebeldes ainda teima em resistir, depois que o governo da Síria, com a ajuda da Rússia, praticamente têm o domínio dessa terrível guerra civil?  Por que o Ocidente e sua imprensa insistem em desqualificar o médico e presidente Bashar Al-Assad, com o título de Ditador Sanguinário, enquanto os EUA consentem e são aliados de outras ditaduras no Oriente Médio, tal como a Ditadura Real da Arábia Saudita e tantas outras?

Há detalhes curiosos nessa intervenção militar na Síria. Apesar de um bombardeio desproporcional, aparentemente não morreu ninguém. Um dos motivos é, sem dúvida alguma, a eficácia cirúrgica dos ataques, que demonstra o poderio dos agressores americanos, ingleses e franceses. Mas, o que paira no ar é que tudo tenha sido combinado com a Rússia, que teria ajudado o esvaziamento humano das áreas bombardeadas. A Rússia não reagiu militarmente, somente fazendo protestos verbais. E não foi por medo nem por falta de capacidade de enfrentamento, pois o principal ela possui: um estoque de bombas atômicas e tecnologia espacial. Tudo indica que nos dois dias que antecederam a essa operação houve supostas e intensas negociações. Tornou-se público que Emmanuelle Macron avisou a Moscou a respeito do ataque antes que acontecessem. A França possui poderosos sindicatos de trabalhadores e o dos ferroviários estará paralisando o País até o mês de junho próximo. O governo francês enfrenta protestos. Nos Estados Unidos, Donald Trump continua em descrédito popular, é investigado por supostas interferências russas a favor da sua campanha a presidente, além da debandada de seus assessores. Com a Primeira-Ministra inglesa, Tereza May, não está sendo diferente, principalmente com a precipitação do seu grupo político, que foi a favor do Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia. O sistema de saúde pública inglês está sob críticas. O ataque militar conjunto desses três aliados, recheado de muito papo e ufanismo, toca nos brios patrióticos dos cidadãos dos seus países e atenua as críticas aos seus governantes E dá lucro para a indústria bélica.

Ninguém está preocupado em dar fim à guerra civil síria. Israel e o Ocidente querem a derrubada de Assad, que é sustentado pela Rússia. Prolongar o conflito é protelar a vitória de Assad e daqueles que lhe dão apoio - russos e iranianos. A retórica de que o ataque militar serviria de alerta para que o ditador Assad não mais use armas químicas não convenceu a ninguém no exterior, mas a mensagem ilude e agrada parcela de americanos, ingleses e franceses. Não se deve esquecer que os que condenam o uso de gases venenosos possuem esses arsenais mortíferos e não hesitarão em usá-los em momentos críticos. Os americanos em desvantagem, usaram ‘napalm’ na Guerra do Vietnam. Pior do que isso, despejaram duas bombas atômicas no Japão na II Guerra Mundial, queimando vivos, na hora, meio milhão de pessoas e causando outras milhares de mortes, ao longo dos últimos anos, em decorrência da radiação. A população indefesa sofre e foge, mas quase ninguém quer saber de refugiados. Enquanto isso, as potências mundiais testam seus ‘brinquedinhos de destruição e morte’ em nações inferiorizadas diante de seu poderio. Foi assim com o Iraque. Assim é com a Síria. Continuará sendo com outros países.

Marco Regis*

*O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) -  [email protected]