EDITORIAL DO ESTADÃO DETONA CENTRÃO (DEM-PP-PR-PRB-SD)

Publicado em 27/07/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

EDITORIAL DO ESTADÃO DETONA CENTRÃO (DEM-PP-PR-PRB-SD)

A temperatura morna das eleições gerais brasileiras de 2018 começa a subir. Apesar do aparente desânimo da população o clima vai esquentar, ainda acho que vai ferver. Semana passada escrevi sobre os incrédulos e os revoltados com a política, certamente que não me incluí nesse meio. Até destaquei que aqueles que pensam que vai haver renovação política devem ser pessoas que acreditam em “papai noel”. Com isso quis dizer que essas pessoas vivem num mundo de sonhos, que são pessoas que passaram a infância crendo nesse ídolo do capitalismo, porque, filhos de famílias de melhor posse econômica, foram mimados e acostumadas com muitos e valiosos presentes natalinos. Então, essas mesmas mimadas e choronas pessoas cresceram e não perceberam a realidade da vida. Escutam o noticiário massacrante dos que passam fome, dos que sobrevivem com salário mínimo, dos que estão vulneráveis às balas perdidas nos tiroteios entre quadrilhas ou destas com a polícia e, ainda, assim vivem no seu mundinho de conforto, como se nada tivessem com isso. Tudo que escutam nos noticiários das televisões são recebidos como verdades incontestáveis, pois foram moldados na verdade do “papai noel” e dos presentes que ele lhes deixava. É difícil cobrar dessas pessoas uma análise minuciosa de postagens mentirosas e ardilosas do lixo digital que enche nossas cabeças. Para quem sempre acreditou em papai noel mais cômodo e menos trabalhoso é compartilhar o que certamente não entende, mas acredita como verdadeiro.

Mas, vamos aos fatos. Em outubro de 2014 aconteceu a última eleição geral no Brasil na qual Dilma Rousseff (PT) foi reeleita presidente da República, tendo Michel Temer (PMDB) como seu vice, num pleito acirrado em que Aécio Neves (PSDB) perdeu com pequena diferença e ficando o Brasil rachado entre os vencedores e os inconformados perdedores. Em fevereiro de 2015, forma-se o embrião do chamado “centrão” que elege Eduardo Cunha (PMDB) presidente da Câmara dos Deputados, um inimigo declarado dos petistas, começando, institucionalmente, a trama pela derrubada da presidente da República, que viria se concretizar através de um golpe parlamentar travestido de legalidade, porém abençoado pelo Poder Judiciário. Ocorre que, no decorrer de todo esse episódio, Eduardo Cunha vê-se envolvido em denúncias da Operação Lava Jato, sendo denunciado pelo então Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot e a denúncia acolhida pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavasck. No frigir dos ovos, Dilma sofreu um “impeachment”, mas seu algoz e um dos mais poderosos presidentes que a Câmara Federal já teve, Eduardo Cunha, foi afastado do cargo por denúncias de corrupção, condenado na Comissão de Ética daquela Casa Legislativa, renunciando antes que pudesse ter o mandato cassado. Encontra-se preso há quase dois anos, em Curitiba-PR.

No entanto, o chefe da tropa de choque de Eduardo Cunha, deputado federal Carlos Marum, gaúcho, mas deputado federal pelo MDB-MS, deu continuidade ao “blocão” ou “centrão”, sendo hoje Ministro-Chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República. O “centrão” elegeu o deputado Federal Rodrigo Maia (DEM-RJ) como atual Presidente da Câmara dos Deputados e, em 2016, chegou a ser constituído por 16 partidos políticos. A intenção do bloco era marchar unido para eleger o novo presidente da República, agora em 2018. Entretanto, esta eleição vai ser decidida pelo povo e não pelos habituais conchavos desses parlamentares. Tanto é que o “centrão” murchou hoje para apenas seis siglas: DEM – Democratas; PP – Progressistas; PR – Republicanos; SD – Solidariedade; e PRB – Partido Republicano Brasileiro, onde há grande presença de pastores da Igreja Universal. Teoricamente, o blocão é forte porque juntos darão mais de 4 minutos de tempo no horário eleitoral, numa campanha política que vai ser curta, além de somarem um bom dinheiro do Fundo Partidário para a sua coligação.

O presidente da República, Michel Temer, já ameaçou de cortar ministérios e cargos desses partidos se eles não marcharem para as urnas sob a orientação do Palácio do Planalto. Porém o oportunismo deles é insondável. O deputado federal baiano, líder do PR, um dos golpistas da Câmara, José Rocha, declarou à imprensa que “o partido está meio a meio, há deputados que preferem Jair Bolsonaro (PSL) e outros que são favoráveis a apoiar Lula (PT)”. O “centrão” já esteve propenso a apoiar Ciro Gomes (PDT), mas o PRB comandou a retirada. Os últimos entendimentos dão conta de um provável apoio a Alckmin (PSDB).

Mas, o que quero reproduzir para os leitores deste semanário são trechos do editorial de um dos mais antigos e lidos diários brasileiros, de tendência direitista, “O Estado de S. Paulo”, de 20 de julho último – data das primeiras convenções que estão a escolher candidatos à Presidência da República. Do editorial sob o título “O JOGO DECISIVO DO “CENTRÃO”, vou pinçar trechos da opinião do jornal em apreço para atuais e futuras interpretações dos leitores: “Deveria ser proibido para menores de 18 anos  o noticiário sobre as articulações do chamado ‘centrão’ em torno da sucessão presidencial [...] ‘centrão’ é o nome que se dá ao ajuntamento de partidos fisiológicos que se mobilizam sempre que existe a oportunidade de aumentar ganhos em barganhas que, de tempos em tempos lhes são oferecidas. [...] Nada ali lembra nem remotamente a política como deve ser, isto é, o embate democrático de ideias em torno do interesse dos eleitores [...] ninguém ali faz muita questão de esconder esse comportamento obsceno. [...] Somente os incautos acreditam que ‘centrão’ seja o nome de um bloco político legítimo, com aspirações programáticas ideologicamente discerníveis. O ‘centrão’ é apenas um rótulo para vários partidos nanicos, pequenos e médios que buscam avidamente orbitar o poder para auferir benefícios políticos e pecuniários e sabem que, juntos, ganham maior capacidade de constranger o governo para atender as suas demandas – que se resumem a facilidades, cargos e verbas [...] Afinal o que esperar de um governo formado a partir da associação de notórios oportunistas? Mas, o sistema político-eleitoral brasileiro infelizmente é talhado para produzir aberrações que praticamente inviabilizam a formação de candidaturas competitivas sem coligação com partidos explicitamente fisiológicos. Assim o País tem assistido nos últimos dias ao leilão do ‘centrão’ entre diversos candidatos a Presidente, de todos os matizes ideológicos. [...] Enquanto o gelatinoso ‘centrão’ não se decide, quase todos os candidatos mais competitivos guardam lugar em suas chapas para um candidato a Vice-Presidente indicado pelo bloco [...] na expectativa de adicionar precioso tempo de TV às suas campanhas [...] Depois de todo o movimento em prol do saneamento da política, que tem mobilizado a opinião pública desde a eclosão da Lava Jato, a eleição presidencial mais importante dos últimos tempos pode ser decidida justamente por alguns dos partidos e caciques mais identificados com as baixarias que aviltam a política”.

*Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]