Coxinhas, mortadelas e violência

Publicado em 18/05/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Coxinhas, mortadelas e violência

Não poderia eu deixar de reverberar um tema suscitado no programa televisivo “Conversa com Bial”, levado ao ar nesta semana pela Rede Globo.

Uma das razões é que eu vivi o medo e a violência decorrentes do regime militar que dominou o Brasil durante vinte anos a partir de 1º de abril de 1964. A outra razão é não aumentarmos as próprias condições de violência em que atualmente vivemos.

Pois bem, uma grande parcela de cidadãos prega inconsequentemente uma nova ditadura militar. O problema não é o militar. O problema é a ruptura do estado democrático de direito e a perda dos direitos e garantias individuais inclusivos de uma democracia e o retrocesso ao despotismo. Não pensem essas pessoas despreparadas política e culturalmente que simplesmente a corrupção poderia ser saneada num governo autoritário. Aliás, ela poderia até ficar localizada e encoberta nesse estado autoritário, pois a voz do povo e a voz da imprensa seriam caladas pelo princípio do “MANDA QUEM PODE E OBEDECE QUEM TEM JUÍZO”.

Enganam-se aqueles que imaginam que um regime forte fica restrito a um núcleo central bem intencionado e de bons propósitos. Aparente e hierarquicamente daria essa impressão. No entanto, o regime para ter sustentação dependeria de outros pontos de apoio numa grande pirâmide e numa imensa base se atentarmos para a grande dimensão territorial e populacional do Brasil.

Haveria interventores e gestores nos estados e nos municípios. Bem sabemos que o caráter e a índole das pessoas são por demais variados. Estaríamos todos subordinados à autoridade e ao autoritarismo não somente das Forças Armadas Nacionais, mas, também a personalidade e aos humores desses gestores e interventores, bem como das polícias estaduais, civis e militares.

Os problemas a serem resolvidos no dia a dia das pessoas não somente são políticos, ou puramente de corrupção. Daí que os próprios cidadãos que pregam uma intervenção militar começam a ser atingidos e começam a se arrepender da ideia que tiveram, pois em quaisquer localidades, por menores que sejam, vão existir detetives, escrivães, delegados, soldados e oficiais de polícia que, muitas vezes, vão abusar do maior poder naquele momento a eles conferidos.

O programa do Pedro Bial desta semana alertou para isso, pois colheu depoimentos de jornalistas e escritores que investigaram as ocorrências da ditadura militar de 1964. Mais do que isso, levou um ex-soldado do Exército que combateu na chamada Guerrilha do Araguaia, o qual revelou as atrocidades e desumanidades praticadas naquela época. Não foram elas somente contra os “subversivos e terroristas” de então, conforme revelou o Soldado Raimundo, que era integrante do Exército, mas contra eles próprios que eram tratados como ninguém pelos seus superiores e, frequentemente, torturados por quaisquer suspeitas ou intrigas dentro das tropas.

A intolerância de hoje entre “coxinhas e mortadelas” nos proporcionou o recente Golpe do Estado Constitucional, que derrubou Dilma Rousseff da presidência do país. Poderá nos levar a rupturas e danos maiores.


Marco Regis - O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) -  [email protected]