AS ELEIÇÕES E A RENOVAÇÃO POLÍTICA

Publicado em 11/10/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

AS ELEIÇÕES E A RENOVAÇÃO POLÍTICA

Em artigo que produzi para este jornal, quase três meses antes das eleições, precisamente para a edição de 20 de julho, previ, no título, que renovação política era para quem acreditasse em ‘papai Noel’. Nele abordei o desencanto da população com a política, mormente pela explosão da corrupção. Na verdade, lembrei do histórico da corrupção em nosso País, da sua cronicidade, desde o descobrimento do Brasil até os tempos recentes de verdadeiras bombas como o ‘mensalinho, o mensalão e a lava jato’. Na ocasião, omiti, para não ficar repetindo meu resumão de sempre, que não faz muito tempo, bombas corruptas também deixaram de explodir por ocasião da onda neoliberal e das privatizações da década de 1990, sobretudo por desinteresse oficial nas investigações e a blindagem feita pela grande imprensa empresarial, que sempre defendeu a entrega do nosso patrimônio estatal à iniciativa privada. Pois, hoje, pretendo reafirmar o que escrevi com a interpretação do resultado das eleições do último domingo. Naquela oportunidade, afirmei que: “Deixem de sonhar com uma saudável e total renovação dos nossos parlamentos. Aqui e acolá a renovação vai acontecer. Mas, não muito acima da média de sempre, que oscila entre 30% a 40%”.

Os mais entusiastas irão me contradizer, interpretando que a reviravolta foi grande. Porém, os números são mais frios nessa interpretação. A grande sacada foi, enfim, a centro-direita brasileira ter tido a coragem de se assumir como extrema-direita. A defesa de determinados conceitos de propriedade, família, nacionalismo, religião desnudaram o seu falso centrismo. Debandaram do PSDB e outros menores, acompanhando o PSL de Bolsonaro, seguindo uma tendência mundial capitaneada pelos Le Pen, na França, pelo AfD (Alternativa para a Alemanha), pelo FPÖ (Partido da Liberdade da Áustria). Neste sentido, foi a garrafal manchete do diário ‘Folha de S.Paulo’, desta 2ª. feira, 8: “ONDA DE DIREITA”, enquanto no seu editorial “A Onda”, pinçamos: “Bolsonaristas de origem ou de ocasião surpreenderam nos maiores colégios eleitorais do país”. Na 3ª. feira, 9, manchete menor de ‘O Estado de S. Paulo’ afirma: “Evangélicos, ruralistas e bancada da bala ganham força”. Ainda no ‘Estadão’, a colunista e, ainda, comentarista de TV, da Globo News, Eliane Cantanhêde, além de citar os altos índices de rejeição dos candidatos a presidente, que passaram para o segundo turno, batiza a referida e fortalecida bancada de BBB – da Bíblia, do Boi e da Bala, ainda opinando: “Bolsonaro capitão reformado do Exército, tem uma visão de mundo, e de direitos humanos, muito particular. E, seu vice, um general que passou há pouco para a reserva, tem ideias exóticas. Já defendeu a intervenção militar, condenou a ‘indolência dos índios’ e a malandragem dos negros’ e está orgulhoso do ‘branqueamento’ do neto. Hitler sorriu no túmulo”.

Comecemos pelos números da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Nela, a renovação comparativa entre 2014 e 2018 foi de 40,25%, sendo 31 os novos dentre os 77 deputados. Entretanto, existe uma variável que nem todos enxergam: dez das novas cadeiras foram preenchidas por parlamentares que deixaram seus mandatos para se aventurarem em outros como deputado federal (8), 1 para senador (Fábio Cherém) e 1 para governador (Adalcléver Lopes). A propósito daqueles que tentaram alçar vôo até a Câmara Federal, dois se deram mal: Fabiano Tolentino (PPS) e Felipe Athiê (PTB); seis obtiveram o seu intento: Emidinho Madeira (PSB), Fred Costa (PATRIOTA), o jornalista e teólogo Gilberto Abramo (PRB), Lafayette Andrada (PRB), da interminável dinastia dos Andrada, de Barbacena, Paulo Guedes (PT) e Rogério Correia (PT). Quatro deputados não disputaram a reeleição: Anselmo Domingos (PTC), Tiago Ulisses (PV), Missionário Márcio Santiago (PRB) e Cabo Júlio (MDB).  Em Minas, foram eleitos 5 sindicalistas, 5 policiais civis ou militares e 7 dos meios de comunicação. As duas maiores renovações anteriores e mais recentes ocorreram em 1998 (38,97%), 2002 (46,75%, QUE ME ATINGIU) e 2006 (40,25%). As maiores bancadas a atuarem, a partir do ano que vem serão: PT (10 deputados), MDB (7) PSDB (7) e o crescimento dos aliados originais do PSL de Bolsonaro (6 deputados). Para conhecimento dos nossos leitores, devo informar que o deputado com 7 mandatos, Dilzon Mello (PTB / Varginha), não se reelegeu, mas tiveram êxito Antonio Arantes (PSDB / S.Sebastião do Paraíso) e Dalmo Ribeiro (PSDB / Ouro Fino), ambos na casa dos 69.000 votos, aqui da nossa região, além do meu apoiado Sávio Souza Cruz (MDB / Esmeraldas e Curvelo), com 74.000 votos, o 4º da sua Coligação e o 21º do Estado).

Segundo o jornal “O Globo”, do dia 8 desta semana, a renovação na Câmara Federal foi da ordem de 47,3%. Em 2018 são 243 os novos eleitos dentre os 513. Em 1998 foram 183 os novos (35,7%), em 2002 (35,9%), em 2006 (37,6%), em 2010 (36,8%) e 2014 (38,6% = 198 deputados federais). A capa do ‘Estadão’ desta 3ª f., 8, assim dimensiona o número de deputados, por partidos, na Câmara Federal: PT (56) PSL (52) PP (37) MDB (34) PSD (34) PR (33) PSB (32) PRB (30) DEM (29) PSDB (29) PDT (28) SD (13) PODEMOS (11) PSOL (10) PTB (10) PC do B (9) NOVO (8) PPS (8) PROS (8) PSC (8) AVANTE (7) PHS (6) PATRIOTAS (5) PRP (4) PV (4) PMN (3) PTC (2) REDE, DC e PPL (1 cada). Grandes derrotas aqui da nossa região: Aelton Freitas (PR), Carlos Melles (DEM), Renato Andrade (PP), além de Carlos Mosconi (PSDB), que buscava mandato de volta.

Em resposta a uma pergunta, em matéria de Mariana Haubert e Camila Turtelli, no ‘Estadão’, dia 9, sobre este maior índice de renovação da Câmara dos Deputados nos últimos anos, assim respondeu o diretor do respeitado DIAP – Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – Antonio Augusto Queiroz: “Essa alardeada renovação não vai dar uma cara nova para a Câmara dos Deputados justamente porque os novos parlamentares vão chegar representando velhas pautas. O que houve foi uma circulação do Poder. A maioria dos novos deputados já ocupava cargos políticos antes e os que são efetivamente novos vêm basicamente de quatro origens: são evangélicos, policiais ou militares, celebridades ou filhos de políticos tradicionais”.

No Senado Federal, sim, houve considerável renovação nesta eleição dos 2/3 das vagas: 87%. Somente 8 dos 32 que disputaram a reeleição o conseguiram. Quatro saíram para a disputa do cargo de governador: Anastasia (PSDB-MG), Fátima Bezerra (PT-RN), Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Gladson Cameli (PP-AC), os dois últimos eleitos em 1º turno e os dois outros foram para o 2º turno. Bancadas reduzidas de 2014 para 2018: MDB (18 para 12); PSDB (12 p/ 8); PT (9 p/ 6): DEM mantida com 6. A REDE aumentou se nº de senadores de 1 para 5 e o PSL de zero para 4. Chegam PSL, PHS, PSC, PRP e Solidariedade. O PC do B perdeu sua única vaga.

No mapa dos governadores o PT elegeu 3; o PSB, 3; o DEM, 2; e o MDB, PHS, PP, PSD e PC do B, 1 (hum) cada. O mapa definitivo será construído no 2º turno, pois há 13 estados e o DF em disputa. Inquestionavelmente, MINAS GERAIS tornou-se a grande surpresa do 1º turno com a ida do novatíssimo Romeu Zema (partido NOVO) para o 2º turno, alijando o atual governador Fernando Pimentel PT) da disputa e, ainda, ganhando do 2º colocado e ex-governador, Antonio Anastasia (PSDB) em dez regiões do Estado, somente ficando atrás dele na região do Vale do Mucuri (Governador Valadares/Teófilo Otoni).

Assim é a política. Nela se ganha e se perde. Os novos trazem quase sempre novas propostas, novos ideários. Esta é a essência e a beleza da democracia: a convivência pacífica entre os opostos. O atual presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Dias Tófoli, em solenidade comemorativa dos 30 anos da Constituição Federal, no dia 5 de outubro último e na presença de todas as mais altas autoridades do Brasil, dos 3 Poderes, assim se expressou: “ESCRAVIDÃO, NUNCA MAIS; DITADURA, NUNCA MAIS; FASCISMO, NUNCA MAIS; NAZISMO, NUNCA MAIS; COMUNISMO, NUNCA MAIS; E DISCRIMINAÇÃO, NUNCA MAIS”. Então: Viva o Povo, Viva a Democracia!

Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (19995/98; 1999/2003) – [email protected]