A MONARQUIA BRITÂNICA FORTALECIDA ENQUANTO A NOSSA FOI GOLPEADA

Publicado em 25/05/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A MONARQUIA BRITÂNICA FORTALECIDA ENQUANTO A NOSSA FOI GOLPEADA

    Acontecimento de repercussão mundial, na semana que passou, no Reino Unido, o casamento real do Príncipe Harry com uma plebeia estrangeira, Meghan Markle, aviva algumas curiosidades e reflexões acerca daquela nação e seu povo. Não querendo subestimar o conhecimento dos leitores nem valorizar o que escrevo, considero este momento oportuno para que rememoremos a complicada geografia e dados históricos do reino em questão, que se constituiu, nem tão longe assim, num dos maiores impérios do nosso mundo – o Império Britânico – o qual perdeu parte da sua força e da sua territorialidade com as prejuízos advindos das duas grandes guerras mundiais. Já tive dificuldade de entendimento desse reino pela diversidade da origem dos seus povos e o uso de terminologias como inglês, galês ou britânico. Ou pela presença do Swansea F.C no campeonato inglês de futebol, sendo ele representante de uma cidade do País de Gales, enquanto o Celtic, de Glasgow, mais famoso não o faz.  Ou por que a Grã-Bretanha vai à Copa do Mundo de Futebol junto com o País de Gales, Escócia e Irlanda? Somente com repetitivas leituras do meu inseparável Almanaque Abril e, recentemente no Google, fiquei mais à vontade para sair da condição de aluno refratário ao aprendizado. Preciso até esclarecer que o tal de Swansea disputa a famosa Premier Ligue, “porque naturalizou-se inglês”, pode? Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda do Norte pertencem ao Reino Unido, como veremos, mas são consideradas nações independentes, pode?

               Mas, para tocar o assunto, quero transcrever uma frase esclarecedora da edição de 2014 da publicação citada, pertencente ao “império Civita”, afirmando que o Reino Unido é “Berço das instituições parlamentares modernas e da Revolução Industrial”, seguindo-se que o mesmo “encabeça do século XIX até meados do XX, um dos maiores impérios da História, alcançando os cinco continentes”.

                Creio que a maior dúvida é a identificação do que seja REINO UNIDO, INGLATERRA E GRÃ BRETANHA.  Primeiramente, deve-se ter em mente que, desde a primeira metade do século passado, o império decadente passou a chamar-se, oficialmente, REINO UNIDO DA GRÃ-BRETANHA E IRLANDA DO NORTE, quando a porção maior da ilha da Irlanda proclamou sua independência e passou à denominação de República da Irlanda ou Eire (70.273 Km2), menor do que nossos estados de Santa Catarina ou Pernambuco, com capital em Dublin, e população de maioria católica. Por outro lado, a parte menor da ilha da Irlanda, ao norte, com menos de 14.000 Km2, de população protestante, capital Belfast, permaneceu vinculada ao Reino Unido, juntamente com outras pequenas ilhas da região, tipo Orcadas, Hébridas, Lewis e outras, por exemplo, nos continentes centro e sul-americano, como ilhas Caymãs, nas Antilhas, e Malvinas/Falkland, de disputa com a Argentina, no Atlântico sul. Inclui-se na estrutura territorial do Reino Unido, SENDO A SUA PARTE PRINCIPAL, a grande ilha da GRÃ-BRETANHA, dividida em três nações com parlamentos e governos independentes, mas, tendo a atual Rainha Elizabeth como Chefe de Estado em comum, sendo: a INGLATERRA, a ESCÓCIA e o PAÍS DE GALES. Dos quase 230.000 Km2 da ilha da Grã-Bretanha, digamos que, equivalente ao Estado de São Paulo (248.000 Km2), mais da metade (130.000 Km2) pertence à Inglaterra, capital Londres, completados pela Escócia (78.000 Km2), capital Edimburgo – embora Glasgow seja maior – e pelo País de Gales (20.000 Km2, tamanho do nosso Sergipe), capital Cardiff. Essa grande ilha fica no noroeste da Europa, circundada pelas águas do Oceano Atlântico e pelo Mar do Norte. Encontra-se separada da porção continental da Europa pela distância de pouco mais de 30 Km pelo famoso Canal da Mancha. Precisamente, tal separação dá-se em relação à França, embora hoje ligadas pelo estupendo Eurotúnel, construído debaixo do mar.

                Lá pelos idos do ano 1.000 consolidavam-se os reinos da Inglaterra e da Escócia. Por volta de 1.600 o Rei Jaime VI da Escócia herda o trono inglês como Jaime I e ambos os reinos governados pelo mesmo monarca. Décadas à frente, a Guerra Civil Inglesa, implanta um breve período republicano (1649/60) sob a liderança de Cromwell e com a decapitação do Rei Charles I. Logo foi restaurada a monarquia com Charles II. Em torno de 1.700 unem-se os reinos da Escócia mais Inglaterra, nascendo o Reino da Grã-Bretanha e criado o Principado de Gales como consolo para um dos pretendentes ao trono. Com a adesão do Reino da Irlanda, da ilha vizinha, surge o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Futuramente, com a separação de República da Irlanda, que proclamou-se independente, e Irlanda do Norte leal ao Reino Unido, uma luta rotulada de Católicos x Protestantes, hoje rebatizada de Nacionalistas (pró-saída do Reino = católicos) e Unionistas (leais ao trono = protestantes), vem a atual denominação de Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte anteriormente citada. Merece ser lembrada a fundação da Igreja Anglicana pelo Rei Henrique VIII, que rompe com o Papado, que lhe negara uma autorização para se divorciar, isto nos meados dos anos de 1.500. Desde então os soberanos governam a Igreja Anglicana, muito embora a liderança espiritual fique com o Arcebispo da Diocese de Cantuária (Archbishop of Canterbury).

               Temos visto o quanto os britânicos cultuam a sua realeza. A plebeia Daiana, embora tenha se casado com o 1º na linha sucessória ao trono atual, o Príncipe Charles, oficialmente, nunca teve o título de Princesa; nem Kate, que se casou com o Nº 2, William; nem Meghan, recém-casada com Harry, ambos filhos de Charles e Diana. Mas, estes casamentos têm revigorado a realeza, tornando-a mais próxima dos súditos, porquanto essas mulheres não foram levadas pela “dondoquice” real e trouxeram modernidade à monarquia britânica. A recém-casada Meghan é divorciada, artista, feminista, afrodescendente, e norte-americana, uma protagonista sob medida para os dias de hoje, inclusive no ressurgimento de laços maternais com os Estados Unidos.

               O Brasil viveu tempos de monarquia com os seus dois imperadores. D.Pedro I era impulsivo e a imagem de quem pode tudo, mas, sacrificou-se ao ver a família real voltar para Portugal passada a ameaça napoleônica. Ficaram ele e o legado da realeza portuguesa no Brasil. Vem o esperado rompimento dos laços com a Coroa, aqui ficando e nos dando sustentação na construção de um País independente.  D. Pedro II era culto, ponderado, conciliador, avesso à pompa, humilde e admirado no exterior. Foi um menino sofrido, que ficou órfão com hum ano de idade e aos cinco foi deixado pelo pai, que retornou às terras lusitanas, ficando ele aqui com o pesado encargo de crescer sem infância, sob pressões psicológicas, a fim de se tornar o Segundo Imperador do Brasil – e o último – pois seu meio século de Reinado foi abruptamente interrompido por castas militares e uma suposta elite republicana e minoritária – um incontestável golpe de estado, que o obrigou chispar desta terra como se ele e sua família criminosos fossem. Curioso é que a violência foi substituída pela malandragem em recentes golpes de estado, usando-se artifícios constitucionais, a falsa austeridade e o conluio do Parlamento com o Judiciário, em casos ocorridos no Paraguai, no Peru e no Brasil, com Dilma Rousseff. Menos mal correr dinheiro e lama suja do que sangue de gente utópica.

Marco Regis - O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) -  [email protected]