(RE/DES) CONSTRUINDO A IMAGEM

Publicado em 30/08/2017 - ivan-pereira - Da Redação

(RE/DES) CONSTRUINDO A IMAGEM

O homem público somente pode ser conhecido por sua imagem. São raros aqueles que os conhecem de maneira mais completa, íntima e pessoal, assim, a imagem do político acaba por ser um dos seus bens mais valiosos.

O conceito “imagem” é um dos mais ricos e complexos da linguagem da política. Trata-se de um termo que pertence simultaneamente ao campo da publicidade, da psicologia e da política. Além de positiva ou negativa, a imagem pode ter ficado “arranhada”, “comprometida”, “prejudicada”; e principalmente, pode estar necessitando de “correções” e “ajustes”. Pode ainda estar em processo de “criação”, “construção” ou de “mudança”.
Não há como evitar, assumir a carreira pública significa, inevitavelmente, aceitar que você adquirirá uma imagem (que pode ou não ser compatível com a que você tem de si mesmo), e que terá que administrá-la para evitar que ela venha a ser deturpada. Administrar a imagem é, portanto, matéria da maior relevância para o sucesso político e para o desempenho de suas funções administrativas, sendo um empreendimento muito complexo e difícil, porque a imagem, uma vez constituída, torna-se uma construção social suscetível de um controle apenas parcial da parte do homem público que a detém e, se mal administrada, pode escapar ao seu controle e dar origem a uma caricatura que, embora não corresponda aos seus sentimentos, torna-se socialmente uma realidade.
Esse processo perverso é mais comum do que se imagina, e isto se deve ao fato de que os potenciais homens públicos encontram-se na peculiar condição de possuir um grau de visibilidade (freqüência e intensidade de exposição social) inversamente proporcional às reais possibilidades de contato pessoal com o público. As pessoas comuns lidam com esta situação de contato codificando e etiquetando o político de forma mais ou menos arbitrária, com base em características e atributos que acabam por conformar uma imagem definida.
A visão ingênua do político e de muitos marketeiros, no que diz respeito ao tema, tende a assumir duas formas:
1. O poder fictício do marketeiro para criar uma nova imagem;
2. A ingênua suposição do candidato de que basta transpor as mesmas características pessoais do mundo privado para o mundo político.
Em ambos os casos, o pressuposto é o mesmo: a crença na capacidade de a vontade política impor socialmente a imagem desejada.
No primeiro caso incide-se na ilusão de que os técnicos em publicidade e comunicação têm o poder de compor, vender e socialmente impor a imagem desejada pelo uso de técnicas guiadas pelo talento e criatividade. A imagem desejada, “construída na prancheta” é ensinada ao político, por ele introjetada e interpretada, tornando-se a seguir a sua segunda natureza.
No segundo caso, cede-se à falácia de acreditar que a transposição das características pessoais e de estilo, que constituem a real personalidade, podem vir a ser transferidas para o mundo da política com igual eficiência.
As duas falácias, a “criação” e a da “transposição”, evidenciam a incapacidade de entender a verdadeira natureza e dimensão do fenômeno da construção e administração da imagem desejada como uma metamorfose que, neste contexto, não é a simples substituição de uma identidade por outra, nem tampouco a imposição da personalidade plena e total da pessoa.
Essa metamorfose é a exteriorização e desenvolvimento de uma vocação latente, embora autêntica, orientada, corrigida e conduzida por profissionais talentosos, experientes e sensíveis, para a construção de um acerto, de uma composição, entre imagem e personalidade, livre, lúcida e conscientemente assumida. Trata-se de uma construção mais de “negociação de diferenças” do que de imposição; é mais descoberta e aprendizado que representação.
A metamorfose é indispensável e inevitável na transição do mundo privado para o mundo da política. Ela vai ocorrer de qualquer forma. Ao político nessa situação oferecem-se duas alternativas:
1. Ou será construída apesar dele, e até mesmo contra ele (situação em que é socialmente construída);
2. Ou será construída com o seu consentimento e participação, o que lhe dá os critérios necessários para administrá-la.
Além deste balizamento a limitar a latitude do poder criativo sobre a imagem, há também o fato de que o homem público (mesmo o iniciante) possui uma história de vida e uma imagem pré-existente (por mais que queira se livrar dela, em alguns casos). A sua nova fase precisará guardar uma razoável coerência com sua prévia história profissional, pessoal, familiar, e, sobretudo, política.