A hora da verdade

Publicado em 08/06/2017 - ivan-pereira - Da Redação

A hora da verdade

Ano que vem é ano de que? De eleição! E não pense você que os nossos políticos já não estão em campanha, pois esta já está a todo vapor.
Uma campanha eleitoral é um combate entre candidatos pelos “corações e mentes” dos eleitores, e a todo preço na maioria das vezes. Cada candidato apresenta a sua versão sobre si mesmo, sobre o cargo, sobre os problemas e soluções (normalmente exequíveis e com garantia de dedicação absoluta), e sobre seus adversários. O objetivo é o mesmo: fazer prevalecer a sua versão sobre as demais e, desta forma, persuadir o eleitor a votar nele.
A persuasão do eleitor, entretanto, depende de múltiplos fatores como a credibilidade, a sintonia entre prioridades do eleitor e do candidato, o realismo e plausibilidade do diagnóstico dos problemas e das propostas para resolvê-los, e depende também da qualidade da publicidade por meio da qual a versão é difundida e da quantidade de tempo que o eleitor fica exposto a ela. Não basta pois, que o candidato tenha credibilidade, sintonia com as prioridades do eleitor e propostas realizáveis. Se não for capaz de comunicar a sua versão numa publicidade atraente, clara, persuasiva e assegurar os meios para que o eleitor fique exposto a ela pelo tempo necessário para fixá-la, muito dificilmente será eleito, além do fato de que a maioria dos problemas não surgiram nos últimos 12 meses, e todos têm soluções para eles, inclusive os que buscam a reeleição, mas não os resolveram nos últimos 4 anos. Por que resolveriam agora? O que mudou (ou mudará)?
Inversamente, a melhor publicidade com o máximo de exposição pouco adiantará, se o candidato não reunir aqueles atributos de credibilidade, sintonia com o eleitor e realismo (atenção senhores candidatos!!!). No fundo, todo candidato gostaria que o eleitor ficasse exposto somente à sua publicidade do início ao fim da campanha eleitoral. Como isto é impossível, luta por aumentar seu tempo no horário gratuito (coligações) e procura dar o máximo de visibilidade à ela, o que hoje vem se tornando mais fácil, devido a ampla variedade de redes sociais de fácil acesso.
É importante alertar que não se trata necessariamente de publicidade cara e sofisticada (mesmo uma campanha com poucos recursos pode contar com um publicitário para orientar a sua propaganda). Qualquer campanha eleitoral cria a sua publicidade, e, mesmo uma campanha modesta, pode então produzir uma publicidade clara, atraente e persuasiva.
Na campanha eleitoral, portanto, o eleitor fica exposto às "versões" que os diferentes candidatos apresentam e é estimulado a escolher entre elas. O esforço do marketing político é oferecer uma versão tão atraente, convincente e persuasiva que satisfaça o eleitor e o fidelize, fazendo com que ele perca o interesse nas outras e tome a decisão de a quem dar o seu voto de confiança.
Momentos de realidade
Ocorre que o eleitor percebe o que está acontecendo. Ele sabe que, por trás das versões, há o interesse de conquistar o seu voto, e reage de maneira desconfiada, recorrendo ao teste da realidade para evitar ser manipulado.
Este eleitor, que se decide durante e por causa da campanha, adquire então uma especial sensibilidade para buscar a realidade escondida atrás da publicidade. Ele não possui tempo nem disposição para dedicar-se a esta investigação sobre a realidade. É a própria dinâmica da competição eleitoral que vai criar as condições para que ele conte com alguns elementos da realidade para checar as versões.
São os momentos de realidade que lhe servirão como indicadores para ajudar a formar sua opinião sobre os candidatos. Estes momentos batem de frente com a campanha de marketing, criando brechas através das quais aparecem fragmentos de realidade, por meio dos quais é possível testar a consistência da "versão" e/ou a integridade da imagem.
Debates são oportunidades excepcionalmente propícias para a eclosão de momentos de realidade. Por isso o candidato que está em vantagem nas pesquisas hesita tanto em comparecer a eles. Sua posição vantajosa é uma indicação de que sua "versão" está sendo aceita, e, sua participação num debate traz poucos benefícios em troca de muitos riscos. Por isso também, todos os candidatos "editam" a sua versão do debate no programa do dia subsequente, mostrando seus melhores momentos e os piores dos adversários. E procuram "repercutir" o debate, tão logo ele termine, levando personalidades políticas que os apóiam para entrevistas. O objetivo é o mesmo: criar na opinião pública o sentimento de que ele venceu o debate, para influenciar a próxima rodada de pesquisas de intenção de voto.
A capacidade da equipe de marketing e estratégia de uma candidatura mede-se mais pelo sucesso ao enfrentar estes momentos de realidade do que pela capacidade de produzir peças publicitárias de qualidade. Nada é mais importante que sair-se bem nestes momentos e nada é mais destrutivo do que sair-se mal, e temos muitos exemplos recentes disso. Sair-se bem equivale a confirmar a sua versão, e a robustecer a sua imagem. Inversamente, sair-se mal significa, no mínimo, por em dúvida a versão e abalar a imagem.
Em última análise, o eleitor sempre acabará votando numa versão e numa imagem, já que na maioria das vezes não há como conhecer o candidato pessoalmente (realmente conhecer, e não somente o acompanhar nos momentos de publicidade, apertando mãos), nem tampouco reunir todas as informações necessárias para checar a consistência da "versão". Daí a importância insubstituível do marketing na campanha. É o marketing divulgando criativamente uma estratégia vencedora quem pode criar e defender a "versão" que será votada.
O eleitor, entretanto, tem a possibilidade de votar naquela candidatura que foi capaz de sobreviver aos momentos de verdade. Esta capacidade é um indicador da sua consistência, competência e possivelmente de maior autenticidade.
Passado o momento do voto, não adianta mais esbravejar, nem afirmar “que todos são bandidos” e coisas do gênero, que são expressões tão comuns de serem presenciadas nas redes sociais, sobretudo. Para aqueles que vivem a reclamar, especialmente os falsos cientistas políticos do facebook e whats app, se você realmente quer fazer a diferença, vote certo e, talvez, seja você o candidato.