UM REI: QUERINO ANTONIO

Publicado em 07/10/2017 - especial - Da Redação

UM REI: QUERINO ANTONIO

Chovia.
Nascido em 22 de fevereiro de 1940, às 3 da madrugada, meu pai viu de um tudo neste mundo. Não que quisesse enxergar a Segunda Guerra Mundial, a ditadura de Vargas ou dos militares. Tampouco lhe interessaria o gelo quente da Guerra Fria. Mas, mesmo tendo que passar pelos dissabores da história, preferiu ver a natureza. Homem do campo, nascido em Cabo Verde (sua terra, sua cor), era menino de tomar banho de cachoeira e banho de bacia, com água aquecida no fogão à lenha. Junto aos bois, às vacas leiteiras , galinhas; a procura pelos fartos ninhos de galinha d’angola, cresceu amando sua mãe católica fervorosa , seu pai silencioso, afeito ao trabalho braçal e ao cigarro pitado na palha de milho – fumo de rolo. A mãe carinhosa e aconchegante, o pai protetor e sério, também educaram seu mano e sua irmã mais nova. Gente da roça olhando para o céu à espera da chuva que animava o milharal e o cafezal. A casa, de uma simplicidade mineira, ficava na exata divisa entre a verde Cabo Verde e a promissora Muzambinho. Fumaça na chaminé, cheiro de alho queimando e ameaçando comida boa. Os dois meninos lá no ribeirão pescando o lambari que faria acordo com os ovos e o queijo num gostoso omelete.
Noite de estrelas vislumbradas pelas frestas do telhado sem forro. Travesseiro de macela. Sonhos. E, moço, a ida para a primeira turma da Escola Agrotécnica de Muzambinho, inaugurada pelo Getúlio - em pessoa! Anos de novas amizades (duraram uma vida!) E os gabirus desciam para os bailes da cidade. Maria Estela logo escolhida. Escolhida para o cinema, o sorvete, a dança colarinho  e o altar da igreja. Casaram-se os dois belos da cidadezinha . O Unibanco o acolheu com suas máquinas datilográficas , que encantavam seu segundo filho , que, naquele tempo, visitava o pai em plena hora de cumprimento de seu ofício . A primeira filha era sempre presenteada com os doces do carinhoso e... doce pai. A mais nova veio encantar aquela família que se mostrava digna. Todos estudando, trabalhando , aprendendo com o patriarca a serem amantes da beleza natural e simples. A maçonaria e os amigos maçons sempre por perto. Seus velhos pais mais pertos ainda, assim como os inúmeros primos e sobrinhos. Parentes que visitavam a casa dele e de dona Estela, craque na culinária luso-árabe-mineira.
Filhos mudando-se para a grande cidade, casamentos, formaturas, netos. Empregos novos, Coomam, Coomancredi. Um relações públicas atento às necessidades dos mais pobres. Colegas de trabalho que o admiravam e o respeitavam. E de repente toda a cidade tinha nele o exemplo de um homem bom. Um forte que sabia seu lugar no mundo. Admirado cada vez mais. Amado por sua família, amigos, colegas, amigos de amigos. Padrinho de todos os casamentos, de tantos bebês: muitos compadres e comadres.
As perdas. Perdas nada fáceis de sua mãe, de seu irmão-amigo-companheiro-tudo, de seu pai. Mas o Zé Carlos estava lá para despistar essas dores, com seu joguinho de baralho costumeiro, com as pescarias sagradas. E a família festeira e barulhenta animava o silêncio daquele Rei. Todos em volta. Todos tão dignos quanto ele.
E o tempo galopou ligeiro. Sua roça, seu ribeirão, seus peixes, suas plantas, sua natureza cavalgaram com ele. E a velhice nada justa - quando justa? - foi complicando seu corpo magro, esguio, elegante. E médicos passaram a ser constantes. Tão constantes que um dia acharam que ele, tão campesino, deveria passar umas temporadas duras em camas de hospitais. Ficou calado. Falava, como sempre o fez, apenas o necessário. Batucava em toda superfície - talvez uma música imaginada dos tempos de menino. Sorria para todas as enfermeiras e tornou-se o “seu Querido”, em Poços de Caldas e na Santa Casa de Muzambinho. Tempos difíceis. Suportados com dignidade. Vem a dor? Que venha a dor! Sua fé, sua família, seus companheiros e sua amada lá estavam.
Mas não chovia. “Faz 120 dias que não chove!”. E, no dia 29 de setembro de 2017, choveu. Como pede a primavera. Essa chuva brava, boa, criadeira, levou o grande homem. Dois minutos para a meia noite. Lá se foi nosso Rei. Descansar num céu tranquilo. Repleto de verde, de cachoeiras, ribeirões, lambaris e amigos bons de carteado. E chuva boa.
Sobra a saudade.

Do filho Fábio Anderson, em nome de dona América, seu Américo, Moyses, Leninha, Estela, Soraia, Valéria, Paulinho, Samurai, Letícia, Marina, Daniela, Daniel, Zé Carlos, Carmem e muitos, muitos amigos.