TEATRO EM MUZAMBINHO: “FANDO E LIS, HAPPENING DA FELICIDADE”

Publicado em 14/06/2018 - cidade - Da Redação

TEATRO EM MUZAMBINHO: “FANDO E LIS, HAPPENING DA FELICIDADE”

Chocante, imoral, sublime, apocalíptico, caótico, enervante, provocador. Tudo isso é “Fando e Lis”, do espanhol Fernando Arrabal.

            O espetáculo do Grupo de Teatro Boca de Cena, que comemora 19 anos em Muzambinho, é um happening da procura pela liberdade, pela felicidade, pelo amor, pela verdade.

A peça, apresentada nestes próximos finais de semana, é, em resumo aquilo que o Grupo Boca de Cena sempre buscou. Foram 19 anos de batalha para levar sua rica plateia ao questionamento e à cata de um mundo melhor, seja onde for. “Muzambinho sempre esteve no mapa do mundo”, reage seu diretor, “temos que compreender que também estamos no processo de globalização, de luta por melhorias sociais. Temos o dever de participar”, completa. Isso é o tema central da obra do espanhol Arrabal: procurar, buscar, tentar, lutar por um espaço melhor, de convivências melhores. Utopia?
           Mas como complicado é o mundo, alcançar o nada parece mais óbvio. Haverá algum encontro? Alguém chegará a “ser”? Como contestava Alexandre Jodorowsy, mexicano que levou a peça para a tela do cinema, “– És o que és e não o que queres ser. Tudo o que buscas já o trazes dentro de ti.”
           “Fando e Lis” é, em última análise, a ressonância dessa contestação. Fando e Lis são dois jovens à procura de uma cidade misteriosa chamada Taar, símbolo da felicidade, da vida, da liberdade, do amor. Fando guia um “carrinho de rodas” levando sobre ele uma jovem paralítica. Os dois caminham incansavelmente através de uma paisagem de ruínas. Ansiosos, procuram por toda parte Taar. Mas sempre se descobrirão no mesmo ponto de partida. Nessa caminhada angustiante vão tropeçando em todo o tipo de crises e monstros. As discussões-símbolo se sucedem em um verdadeiro ritual happening, revelando todo um mundo de intolerância, de frustrações, de impotências, de dúvidas.
Os três homens do guarda-chuva cruzam o caminho do casal. Eles também estão a caminho de Taar. Cada um parece estar caminhando em tempos diferentes. Ansiedades, brigas, afetam os três que, unidos, seguem seu caminho circular. A viagem a Taar é apenas um jogo, uma experiência vivida que eles não sabem aonde os levará, nem sequer sabem qual seja o caminho.
           Arrabal se volta para o fim do mundo; supõe que uma guerra mundial tenha acabado com o ser humano. Daí partem seus personagens (Fando e Lis) em busca de Taar, que pode simbolizar a redenção, a luz, o amor. Mas o mundo a destruiu. Só restam sinais decadentes de uma sociedade que falsificou todos os valores e conceitos. Há muita gente que busca a si mesmo para renascer (uma simbologia aberta). A arte não deve ser teoria, deve dar ao espectador a oportunidade de escolher a sua própria imagem do mundo. “Fando e Lis” é um espelho em que cada espectador verá refletido seus problemas interiores.
           Fando seria a alma de Lis. Ela o arrasta para o sofrimento, para a paixão. Com a morte, ele se libertará de tudo isso. E Lis seria a alma de Fando, que procura destruí-la durante toda a caminhada. Mas será que ele descobrirá que não pode viver sem ela?
O primeiro passo a dar é eliminar a falsa imagem que se tem de si mesmo para se aceitar como se é, para se encontrar sua totalidade: é livrar-se da máscara.
           Lis poderia ser simplesmente a alma ou o outro ego de Fando. Fando se vê obrigado a arrastar esse ego, encarnado em uma paralítica, como uma cruz. Para encontrar-se consigo mesmo deve destruir a imagem de Lis integrando-a em sua totalidade. Eis Taar, a terra prometida que existe no fundo de cada um de nós.
Os personagens vivem obcecados pela presença da morte. Ao som do tambor e das canções de Fando, Lis caminha para a morte:
“– Que lindo é um enterro! Mas, quando eu morrer, ninguém se recordará de mim.” “– Sim Lis, eu virei te visitar com uma flor e um cachorro. ” Estamos sós?
“– É Impossível chegar a Taar. Ninguém jamais chegou lá.”
           E então o absurdo?
           Não. Taar está dentro de cada um de nós. Ao final, a libertação? Através da compreensão da dor e das dúvidas do outro? O poeta Drummond rabiscou uma saída: “vamos de mãos dadas”.
           Ninguém jamais chegou lá. Ninguém? Nem de mãos dadas?

 

Serviço:

SALTO & CIA APRESENTA:

Peça: “FANDO E LIS”
Autor: FERNANDO ARRABAL 
Direção: FÁBIO ANDERSON 
Elenco:
FÁBIO RIBEIRO - Fando
CAMILA FERNANDES - Lis
TÁLIS MATIAS - Mitaro
THALISSON MELLO - Namour
DUDU OLIVEIRA – Toso 
Local: Espaço Salto e Cia, Av Dr Américo Luz, 516 (próximo à Igreja Matriz)

Datas: dias 16,17,23,24 de junho, sempre às 20h30

Ingressos: meia entrada (antecipados) a R$ 15 (R$ 30 inteira)

Local de compra: Loja Salto e Cia (Av Dr Américo Luz, 516 ou Fone/whats: (35 99122.0221).

CENSURA 15 ANOS