Um certo Capitão Guimarães Rosa

Publicado em 03/12/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

Um certo Capitão Guimarães Rosa

“É um dever cívico e patriótico exaltar os nomes que edificaram nossa nacionalidade e João Guimarães Rosa foi um deles.” (Coronel Klinger Sobreira de Almeida, presidente da Academia de Letras da PMMG) 


Antes de tornar-se celebridade por força da genialidade literária, antes mesmo da cintilante trajetória percorrida na cena diplomática, com notável atuação em prol dos direitos humanos, sobretudo à época da odiosa perseguição nazista aos judeus, João Guimarães Rosa, já graduado em medicina, desempenhou proficientemente as funções de capitão da Polícia Militar de Minas. Sua extraordinária obra intelectual somada a essa honrosa condição inspirou seus companheiros de farda a colocarem seu nome como patrono da prestigiosa Academia de Letras que agrupa intelectuais do meio militar.

 

A instituição patrocinou, este ano, pela segunda vez, a outorga do “Troféu João Guimarães Rosa” a personalidades e organizações que se destacam no culto à memoria e obra do escritor.  Revestida da pompa que já nos habituamos a ver em eventos culturais e cívicos da conceituada corporação, a cerimônia reuniu representativo contingente de convidados. Aconteceu no dia 19 de novembro, data reservada no calendário cívico ao culto da bandeira nacional. Aos agraciados foram entregues pequenas estatuetas do patrono do troféu envergando farda típica do tempo em que serviu como capitão-médico na Força Pública.

 

Dez troféus foram atribuídos a três respeitáveis instituições e a sete cidadãos. Estas as instituições: Batalhão da Polícia Militar de Barbacena (antigo 9º Batalhão de Infantaria), unidade onde Guima atuou nos anos 30; Fundação Guimarães Rosa e Academia Cordisburguense de Letras Guimarães Rosa. Aqui a lista dos demais agraciados: Calina da Silveira Guimarães (homenagem de saudade), coronel Cláudio Roberto de Souza, comandante geral do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, jornalista Juliana Dametto Guimarães Rosa, professora Lélia Maria Parreira Duarte, jornalista Gustavo de Jesus Werneck, empresário Evandro Guimarães de Paula, e, ainda, este escriba amigo de vocês, atual presidente da Academia Municipalista de Letras MG, autor de um ensaio sobre “O lado místico de Guimarães Rosa”.

 

A programação cumprida na solenidade, levada a efeito em praça pública da Cidade Nova, BH, batizada com o nome do autor de “Grande Sertão: Veredas”, contou com o concurso da banda do Corpo de Bombeiros, de guarda de honra da Escola de Cadetes da PM, representação do 9º BMPM de Barbacena, que reverenciou de forma especial a memória do capitão médico diante de sua estátua. Em nome dos homenageados, o coronel Cláudio Roberto de Souza pronunciou discurso de rico conteúdo literário. Além do Hino Nacional e Hino a Bandeira foram executadas, pela banda do Corpo de Bombeiros, a canção da corporação e a canção da Polícia Militar.

 

Ano passado, no mesmo local, ao ensejo do cinquentenário do passamento à pátria espiritual do escritor, reconhecido como a maior figura literária brasileira de todos os tempos, realizou-se pela primeira vez a festa cívico-cultural de entrega do troféu. A estátua plantada na praça foi então inaugurada. A filha de Rosa, Vilma Guimarães Rosa, compareceu. A cerimônia do dia 19 comemorou o 51º aniversário do “encantamento” de Guima.

 

A Academia de Letras da PM, presidida por personagem de realçante presença na paisagem intelectual mineira, coronel Klinger Sobreira de Almeida, com o apoio do Clube dos Oficiais, comandado pelo ilustre coronel e deputado Edvaldo Piccinini Teixeira, organizou o ato comemorativo sublinhando que seu patrono, nascido em Cordisburgo em 1908, graduou-se como médico em 1930, indo clinicar em Itaguara. Em 1932 integrou como voluntário uma unidade da Força Pública, tendo sido comissionado no posto de capitão-médico. Foi efetivado dois anos depois, por concurso, no batalhão de Barbacena. Deixou a caserna para ingressar na diplomacia.

 

No governo JK ocupou o cargo de embaixador, já aí com o nome glorificado nos círculos literários. Da passagem pela PM, Guimarães guardou fortes lembranças. Em registro a respeito frisou que “a Força Pública se caracteriza, antes de tudo, pela homogeneidade e pela continuidade. Homogeneidade no cômputo de seus valores. Continuidade no manter as suas tradições de disciplina e bravura, contribuindo para isso o processo de formação de suas patentes, que galgam das primeiras graduações aos topes da oficialidade por um processo de rigorosíssima seleção de aptidões e capacidades.”

 

Ao complementar estas anotações, não resisto à tentação de reproduzir o que, em breves palavras, compartilhando das duradouras emoções dominantes na praça, comentei com o coronel Klinger. Entre tantas e poderosas razões do que se ufanar, a Polícia Militar ainda pode se orgulhar da inigualável proeza de haver abrigado nos seus quadros, em diferentes momentos de sua história, o maior herói brasileiro, Alferes Tiradentes, nosso governante de maior expressão administrativa e política, Juscelino, e o grande ícone de nossa literatura, Guimarães Rosa.

 

Cesar Vanucci - Jornalista ([email protected])