O homem da mala

Publicado em 27/11/2017 e atualizado em 08/01/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

O homem da mala

“Tempos confusos, esses nossos, em que uma mala volumosa desperta olhares de desconfiança...” (Antônio Luiz da Costa, educador) 

Os aborrecimentos começaram já no carro, a caminho da Rodoviária. A patroa ficou de cara amarrada com a observação que fez sobre o excesso de bagagem. Para quê mala desse tamanhão, mais parecendo baú, difícil de ser carregada, até mesmo por estivadores? Afinal de contas, o casal não estava indo de muda para a Europa. Seu destino era Itaúna, tão pertinho, visita de poucos dias à parentada. Na hora de retirar a malona do porta-malas, no estacionamento da estação, mais amolação. Precisou, com o motorista, dar uma demão pro carregador. Este, por sua vez, espantado com a carga, saiu com uma observação que só fez crescer-lhe a irritação: - “Puxa, doutor! Que peso! Carregamento de ouro?” Franziu a cara, por pouco não cantando a pedra noventa para o enxerido. A patroa, descontraída como sempre, achou de fazer coro com a impertinência. “Não é ouro não moço, mas coisa bastante valiosa, né benzinho?” foi o que disse, catando com o olhar o assentimento dele, maridão. Evitando espichar conversa, fez que não ouviu. Foi quando deu com a presença, nas imediações, de uma dupla de PMs, a acompanhar a cena com interesse que considerou inusitado. Ficou com a incômoda sensação de que os dois se fixaram demasiadamente no malão. Um deles acionou o rádio portátil, o que fez nascer em seu bestunto a hipótese de estar passando para alguém informe sobre a bagagem. A qual, naquele preciso momento, com o auxílio dos dois tripulantes do ônibus, já estava sendo alojada pelo intrometido do carregador no bagageiro do coletivo. 

Embora feito em voz baixa, não lhe escapou o comentário zombeteiro, acolhido com risinhos maliciosos, de um passageiro que aguardava na plataforma a liberação para embarque. “Uma mala tão grande ou é mensalão, ou dízimo.” Nervos à flor da pele, supondo-se alucinatoriamente sob o foco de todas atenções, conteve a duras penas o impulso entalado na garganta de dizer poucas e boas para aquela cambada. Foi todo desconforto viagem afora. Trancou-se em copas. Evitou diálogo com a patroa, a grande responsável pela “invenção” da famigerada carga. Fingiu concentrar a atenção nos jornais que trazia. Folheou-os, de forma displicente, sem o menor desejo de penetrar-lhes o conteúdo. Alguns bons quilômetros rodados, o passageiro próximo pediu-lhe, “por obséquio”, o empréstimo do primeiro caderno de um jornal. Atendeu ao pedido, sem abrir-se para prosa. O cara danou a comentar, em voz alta, suas impressões sobre o que estava a ler. “Minha nossa, mas que absurdo!” “É por essas e por outras que este país não vai pra frente.” Deu para perceber que o vizinho de assento, em clima de desabafo, buscava extrair manifestação de sua parte. Guentou firme. Permaneceu mudo e quedo que nem penedo. Em suas ruminações, atolado de suspeições, achou que o dito cujo estava era mais querendo provocá-lo. Desconfiava ser ele o autor da zombaria na Rodoviária. “Esse tipo desqualificado tá a fim de insinuar que a mala transporta coisas ilícitas, como a televisão vive mostrando, tou vendo.” Acertou com seus botões: “Não lhe darei o prazer de uma palavra.” 

Dominado por tão borbulhantes e desagradáveis pensamentos, viu o ônibus adentrar o pátio da Rodoviária do destino. Desceu e postou-se à espera da bagagem. No instante em que o gigantesco volume lhe foi passado, o tal do passageiro, com um aceno que poderia ser tranquilamente aceito como um gesto cortês, mas que na cachola transtornada do personagem desta nossa história ressoou como injúria, resolveu registrar: - “Que mala, essa sua, hein companheiro?” Foi o que bastou. A gota d’água. Tomado de “santa indignação”, arrancou o correão que envolvia a mala, escancarou-a nervosamente, espalhando desordenadamente pelo chão, diante de uma plateia atônita, o seu infindável e valioso conteúdo. Carne de sol de Montes Claros, goiabada cascão de Ponte Nova, queijo do Serro, linguiça de Itamarandiba, polvilho de São Pedro dos Ferros, doce de leite de Santana do Jacaré, pinga de Jacinto, rocambole legítimo de Lagoa Dourada. E, aos berros, fazendo questão de conquistar toda audiência ao redor: - “Ocês aí, seu bando de fuxiqueiros. Olha pras mercadorias. Sou o homem da mala, mas sou gente direita, seus degenerados”. 

Cesar Vanucci - Jornalista ([email protected])