O combate aos privilégios

Publicado em 04/12/2017 e atualizado em 08/01/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

O combate aos privilégios

“Quantas malas de dinheiro de procedência duvidosa são necessárias para caracterizar devidamente um ilícito penal?” (Pergunta circulante na internet, indicativa da perplexidade quevem tomando conta dos diferentes segmentos da sociedade.) 

Todos se dizem perplexos com o que anda rolando. Coisas do “arco da velha”, como costumavam dizer os antigos, pipocando em tudo quanto é canto apropriado pelo bicho homem. 

Decisões, opiniões, deliberações, interpretações danadas de estapafúrdias, de natureza política, administrativa e jurídica, deixam as pessoas com a “pulga atrás da orelha”, quando não simplesmente atônitas. Cada uma! Com fervorosa convicção, alguém graduado na escala do Poder deixa cair no domínio popular uma revelação incrível. O espalhafatoso flagrante da entrega de uma mala carregada de cédulas de procedência clandestina, a um figurão investigado por delito na linha do colarinho branco, em circunstâncias penumbrosas de suspeição irrefutável, não pode, jeito maneira, constituir prova alguma contra ninguém. Quem ousar pensar o contrário pode até incorrer em crime de injúria contra ilibadas reputações de conspícuos cidadãos. Ora, ora, epa! Por essa realmente ninguém esperava, mesmo no auge de um delírio imaginativo. 

 A propaganda do governo – seja enfatizado, o governo menos acreditado da história -, alardeando estrondosos avanços sociais que nêgo nenhum consegue vislumbrar, jacta-se do “vigoroso” combate que vem sendo movido aos “privilégios salariais”. Espanto inevitável! A referência contempla única e exclusivamente a faixa de valores remuneratórios da Previdência Social. Previdência essa, consoante abonadas vozes da auditagem fiscal, maliciosa e equivocadamente apontada como falida. Silêncio de tumba etrusca, na mais consumada desfaçatez, recobre a realidade contundente das polpudas remunerações atribuídas a afortunados marajás. As autoridades competentes fingem não conhecer aquilo que, do Oiapoque ao Chuí, até nas bandas amazônicas, os próprios aborígenes das remanescentes tribos a serem ainda contatadas pelos sertanistas da Funai “tão” calvos de saber... Legião imensa de viventes, espalhados pelas diferentes esferas do Poder, abiscoitam a cada final de mês holerites com registro de valores infinitamente superiores ao teto constitucionalmente estabelecido. Baita ironia do destino: os caras beneficiados são encarregados, institucionalmente, de zelar pelo rigoroso respeito à determinação constitucional sobre os limites de pagamentos no serviço público. 

A clamorosa omissão oficial alusiva a questão tão candente torna a anunciada disposição de “enfrentamento de privilégios” - como não? – debochada balela. Um insulto a mais à inteligência do homem comum.  

O bom senso e o apreço à justiça mostram, à saciedade, neste preciso momento, que não há mais como insistir na condução de qualquer processo razoável de transformação das políticas salariais, no plano previdenciário brasileiro, sem se recorrer a exaustivos debates e entendimentos com todos setores interessados. Esses segmentos terão que ser convocados a discutir, com os encarregados das estratégias administrativas governamentais, as complexas engrenagens dos diversificados sistemas atabalhoadamente criados ao longo dos tempos para compensar o labor funcional no serviço público. Não se pode mais ignorar que a solução justa e satisfatória para toda essa problemática só será encontrada via adoção, a médio e longo prazos, de um sistema unificado dos regimes previdenciários vigentes. 

César Vanucci - Jornalista ([email protected])