E essa outra baita encrenca?

Publicado em 01/10/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

E essa outra baita encrenca?

“Conveniências espúrias costumam ocultar, neste nosso mundo, muita coisa aviltante à dignidade humana.”

(Antônio Luiz da Costa, educador) 

Ainda recentemente, aqui neste minifúndio de papel onde se cultiva o hábito de alojar singelas ideias e quimeras mil, andou-se falando de colossais encrencas que adoecem o mundo e que são geradas pela insensatez dos homens. Chamou-se a atenção do distinto público leitor para ocorrências, de manifesta crueldade, propositalmente ocultadas ou (quando) divulgadas com indesculpável parcimônia de manchetes pelos meios midiáticos internacionais, sabe-se lá porque cargas d’água! Melhor dizendo, sabe-se lá por quais conveniências políticas, econômicas ou por outra qualquer outra forma aviltante de agressão à dignidade! 

Ao fazer de conta que nada de muito sério, afinal, acontece com relação a certas histórias impactantes, eclodidas aqui ou ali; ao minimizar a contundência de agravos cometidos contra os direitos fundamentais e a cidadania, o grande complexo midiático confessa-se, verdade verdadeira, complacente (se não conivente) com as forças retrógradas ininterruptamente empenhadas em retardar o processo evolutivo civilizatório. Traindo sua natural vocação construtiva, a mídia favorece a disseminação de ignomínias sem conta que atrelam multidões a nauseantes esquemas de perpetuação das servidões humanas.

Mesmo aqueles indivíduos mais embrutecidos em matéria de percepção social, declaram-se hoje aturdidos com certas cenas vindas a tona - mais intensamente nas redes sociais do que em folhas impressas cerceadas pela autocensura - retratando o tratamento desumano dispensado a inocentes crianças atingidas pelo vendaval de intolerância racista que açoita alguns lugares deste nosso convulsionado planeta. Enxergando vesgamente a “imigração sem visto” como crime abominável, não como mera contravenção civil, merecedora antes de tudo de cuidados humanitários, governantes arrogantes se valem de incontestado e implacável poderio para separar famílias inteiras. Colocam pais e mães agoniados em celas infectas. Arremessam crianças inocentes a campos de concentração eufemisticamente batizados de “centros de readaptação”. A violência empregada em tais ações é visível e consciente. Não há como não associá-las às lembranças apavorantes da sinistra era nazista. 

Dos desdobramentos desse estarrecedor drama envolvendo os assim chamados “imigrantes ilegais” jorram mais iniquidades. Ordens judiciais expedidas com o fito de reintegrar os menores imigrantes no seio familiar são cumpridas com relutância, excessiva lerdeza burocrática. Há caso comprovado de criança encontrada morta antes da restituição aos legítimos pais. Menores cobertos de sarna, jamais banhados ao longo do extenso tempo de cativeiro, representam outra nódoa inapagável a mais nesse degradante e doloroso esquema de repressão. Responsáveis pela “guarda” de milhares de vítimas não se pejam em oferecer resistência à entrega determinada pela Justiça. Levantam barreira de empecilhos, do tipo “ausência de documentação”, “necessidade de exames de DNA”, assim por diante... Organizações de defesa dos direitos sociais anotam episódios em que as formalidades de soltura não são de imediato cumpridas pela simples razão de que, “devidamente intimados”, bebês de um ano não puderam, compreensivelmente, comparecer sozinhos às audiências para as quais foram “convocados” na forma da lei etecetera e tal, valha-nos Deus... Essas mesmas organizações sustentam ponto de vista de que, no fundo, essa avalancha de abusos e maldades esconde o perverso objetivo de ir acostumando as pessoas, dentro da linha do preconceito, da intolerância e do racismo, a aceitarem sem maiores questionamentos a desumanização no trato das questões ligadas aos “imigrantes indesejáveis”, não importa se adultos ou menores. 

É elucidativo ressaltar que todas essas coisas horrendas têm como cenário não um território longínquo, desguarnecido de estruturas políticas e jurídicas sólidas, mas, sim, um país universalmente reconhecido como polo de irradiação cultural, econômico mais influente deste nosso atormentado chão azul terrestre. Os Estados Unidos da era Trump... 

Por derradeiro, fica aqui convite para um exerciciozinho de imaginação por parte dos que se angustiam com os rumos trilhados neste mundo do bom Deus onde o tinhoso se habituou a implantar enclaves. E se todos os absurdos relatados estivessem pipocando, não no país mais poderoso, mas nalgum país periférico, de reduzida expressão política e econômica? E se, ainda, espichando o raciocínio, os cidadãos alvejados por maus tratos fossem, todos eles, patrícios do titular da Casa Branca, o que, realmente, estaria acontecendo de avassalador em termos de reação internacional às barbaridades perpetradas? Hein?

 Cesar Vanucci - Jornalista ([email protected])