Cada coisa (3)

Publicado em 22/01/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

Cada coisa (3)

Salário mínimo. Um dos numerosos atos recentes que se aprestam a exprimir, de forma magistral, o grau da sensibilidade social dominante nas esferas governamentais que zelam pelos nossos maltratados destinos é o índice instituído para fins de elevação do salário mínimo em 2018. “Beneficiando” incalculável multidão de brasileiros, os 1,81 por cento “generosamente concedidos” garantirão “expressivo” acréscimo de cinquenta centavos na remuneração diária e de dezessete reais no acumulado do mês. Números, reconheçamos, de jeito a desestabilizar emocionalmente o mais impassível e estoico dos seres pensantes, deixando-o mudo e quedo que nem penedo...

Carmo do Cajuru. A pequena e graciosa Carmo do Cajuru, no centro-oeste mineiro, com seus pouco mais de 20 mil habitantes, entrou na história da “Mega da Virada” –maior loteria promovida na América Latina – graças a uma circunstância incrível, fantástica, extraordinária. No espaço de seis anos, o sorteio relativo ao cobiçado prêmio contemplou, pela segunda vez, alguém do lugar, entre 250 milhões de apostadores. Murmurações de rua alimentam especulações em torno da inimaginável hipótese de que os ignotos ganhadores ou ganhador da primeira vez teriam sido novamente aquinhoados pela boa sorte. Se confirmada tão inacreditável suposição, o caso ganharia conotação de fenômeno insólito, a reclamar estudo de especialistas de reconhecido saber no campo das reações comportamentais humanas, sem a exclusão de investigadores dos chamados “temas transcendentes”. Tais investigações são concentradas em fatos inexplicáveis à luz do conhecimento convencional consolidado.

Penduricalhos. Relato de Elio Gáspari, em “O Tempo”, edição de 27 de dezembro passado: “Numa entrevista ao repórter Fausto Macedo, o presidente da Associação de Juízes Federais, Roberto Veloso, defendeu o auxílio moradia de R$4.300 mensais, livres de impostos pagos aos seus pares e procuradores. Uma parte de sua argumentação é sólida, pois se o magistrado ou o procurador é transferido para outra cidade, faz sentido que receba algum auxílio. Quando Macedo levantou o tema do servidor que receber o auxílio tendo casa própria na cidade em que vive há anos, Veloso respondeu que “não há uma ilegalidade no pagamento”. – Eu me referia a uma preocupação de caráter moral, esclareceu Macedo. – Não estamos com essa preocupação, não é uma pauta nossa, respondeu o presidente AJUFE.

Alô, Alô, Brasil! Quando um juiz tem um pleito em nome de sua classe e diz que não se preocupa com a sua moralidade, a coisa está feia. Segundo a Advocacia Geral da União, o auxílio moradia custa um bilhão por ano. Dentro da lei, somando-se todos os penduricalhos dos servidores do Judiciário, da União e dos Estados, chega-se a cifras assustadoras.”

Apetrecho exorbitante. Lá vem a célebre “Apple” com mais um prodigioso invento. Só que, para o consumidor do Brasil da gente, o novo e super-revolucionário modelo de “telefone inteligente” (smartphone) vai custar os olhos da cara. Em plagas alienígenas está sendo vendido nas lojas por preço infinitamente inferior às quase oito mil pratas cobradas por aqui. Difícil pacas entender os critérios adotados pela empresa em sua política de comercialização. O valor atribuído no varejo a esse estupendo artefato eletrônico é superior – manjem só! – à remuneração média percebida por 97% dos assalariados brasileiros. Curioso e também oportuno registrar que o procedimento da “Apple” não timbra pela originalidade na cena mercadológica brasileira. Há um tempão as montadoras de veículos fazem tal qual. Vendem bem mais barato lá fora os veículos fabricados  aqui dentro. Êta nóis... 

Notáveis. O “entra e sai” no “Ministério dos Notáveis”, enfaticamente prometido, desde o início da gestão, pelo governo Temer, não cessa. A se levar em conta o que o noticiário nosso de cada dia diz, a maioria dos elementos no exercício das relevantes funções e dos indicados como substitutos pelas legendas da base, ostenta algo em comum, além obviamente da identidade partidária: pendências no cartório.

*  Jornalista ([email protected]