Augusto Cesar e a liberdade de crença

Publicado em 26/12/2017 e atualizado em 08/01/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

Augusto Cesar e a liberdade de crença

“Ele apresentava acentuada preocupação por temática brasileira na programação.” (Artur da Távola) 

É provável que, neste acolhedor espaço do vibrante DC, nestes longos anos de enriquecedor contato, dia sim, dia não, religiosamente, com os leitores, já tenha surgido referência à admiração suscitada, ao tempo de ginasiano no Liceu do Triângulo Mineiro, Uberaba, pela erudição revelada na ação pedagógica do saudoso professor de Ciências José Peres, por sinal, excelente pianista. Eu considerava o máximo, sem intenção de trocadilho, as “máximas” com que ele enfeitava as dissertações. Guardo ainda hoje várias delas na memória velha de guerra. Revejo, saudosista, o momento em que ele - pronúncia enfática, sincronizada com a gesticulação denunciando pendor teatral não demonstrado, ao que saiba, em palco - proclama em sala de aula intrigante sentença: “Louvor em boca própria é vitupério!” Lembro-me de haver indagado: “Na boca de parente próximo, também?” Ele titubeou, mas acabou dizendo que sim. 

Abuso à parte, que segundo o dicionário é a expressão branda de sinonímia para vitupério, animo-me com disposição a dar sequência aqui à louvação da obra executada, em sua peregrinação na pátria terrena, pelo saudoso mano Augusto Cesar Vanucci. Pelo que ele fez em vida não há como não classificar de justa a carinhosa manifestação de saudade que amigos, ex-colegas de ação profissional lhe prestaram no Teatro Vanucci, Rio de Janeiro, em ciclo de palestras seguidas de encenações teatrais, no findo mês de novembro, focalizando sua vitoriosa trajetória humana e profissional. 

Ocupo-me agora de um trabalho que ele realizou, como líder carismático e cidadão possuidor de arraigadas convicções ecumênicas, em favor da liberdade de consciência e de crença. Recorro a esplêndido testemunho dado a respeito por ninguém mais, ninguém menos, do que Artur da Távola, influente jornalista e parlamentar já não mais entre nós. Oportuno anotar, antes desse testemunho acerca da atuação de Augusto Cesar em defesa dos valores humanísticos e espirituais sublinhados, o retrato que ele, Artur, fazia de meu irmão como ser humano e como exponencial figura na área da comunicação social e do entretenimento. “Um iluminado!” Assim o descrevia. Completava: “Sente-se na palavra de Augusto Cesar Vanucci comovente fé, vivida e exercida em tempos aparentemente impróprios, pois materialistas; e numa atividade, a artística, marcada por inusitadas expansões existenciais, busca de prazer e mergulho nas patologias contemporâneas como corajosa forma de viver os impasses, dores e esperanças de tempos agônicos.” (...) “Vanucci viveu realidades paralelas aparentemente estranhas entre si, mas particuladas: intensa ação como homem de televisão (um dos mais importantes, acrescento eu) e a atividade espiritual, marcada por contrição permanente, fé inabalável, tendo que conciliar em seu interior, as exigências do meio externo com recebimento de mensagens espirituais permanente.” 

Artur da Távola assevera ainda haver acompanhado, de perto e de dentro, em análises diárias na televisão, o percurso de Augusto como diretor de programas, “completamente diferente dos demais”. Augusto “possuía estilo (que a televisão insiste em não permitir); apresentava acentuada preocupação por temática brasileira no conteúdo; buscava um formato para um show brasileiro de televisão e sempre encontrava alguma forma engenhosa de colocar matéria de natureza mística.” Levava ao ar programas sobre a paranormalidade e a espiritualidade sem sensacionalismo, acrescenta. 

O papel desempenhado por Augusto Cesar nas lutas pela liberdade de crença entra agora no registro de Artur da Távola. Na Constituinte, magno momento da vida brasileira, Augusto ocupa a tribuna da Câmara. “Falou bonito, forte e comovente”, acusa o deputado Távola. Prossegue: “A Constituição não saiu exatamente como queríamos, mas foi aprovado, graças a emenda de minha autoria e por influência dele, Augusto, um texto que lá está, oxalá para sempre, o que garante a liberdade da prática religiosa. Diz o seguinte: “Artigo 5, inciso VI – É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias.” Távola relembra ainda que o texto sofreu ameaça de uma restrição que entregava à polícia a possibilidade de impedir, em avaliação inevitavelmente subjetiva, “práticas religiosas que viessem a ser consideradas perigosas.” Explica: “A restrição abriria porta ao arbítrio. Qualquer autoridade poderia (...) impedir a plena liberdade de culto.” E arremata: “Derrubamos a restrição, graças a emenda minha em íntima articulação com Vanucci e outros.”

Cesar Vanucci Jornalista ([email protected])