As raízes milenares do machismo

Publicado em 27/08/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

As raízes milenares do machismo

“A mulher deve adorar o homem como a um deus.” (Assim falou Zaratustra) 

As raízes do machismo são milenares. Isso remete à evidência de que a estupidez do bípede humano não conhece limitações nem de tempo nem de espaço. Recebo, pelo correio eletrônico, um punhado de registros que têm como foco a mulher. Uma dessas mensagens abarca curiosa compilação de escritos antiquíssimos, alguns extraídos de livros sagrados. O material coloca-nos, estupefatos, diante de processos culturais tremendamente preconceituosos, rançosamente machistas, que predominaram (e em alguns lugares do mundo ainda predominam) em períodos despojados de sensibilidade social e de respeito à dignidade humana. 

Assim, por exemplo, falava Zaratustra, célebre filósofo persa, pregando para fervorosos seguidores no século VII anterior a era cristã: “A mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: Senhor, que desejais que eu faça?” 

As “Leis de Manu”, livro sagrado da Índia, reforçam o atordoante coral da intolerância: “Mesmo que a conduta do marido seja censurável, mesmo que este se dê a outros amores, a mulher virtuosa deve reverenciá-lo como a um deus. Durante a infância, uma mulher deve depender de seu pai, ao se casar de seu marido, se este morrer, de seus filhos e se não os tiver, de seu soberano. Uma mulher nunca deve governar a si própria.” 

O célebre Código de Hamurabi, constituição nacional da Babilônia, outorgada pelo rei Hamurabi, que sustentava havê-lo concebido sob inspiração divina no século XVII a.C., não deixa por menos: “Quando uma mulher tiver conduta desordenada e deixar de cumprir suas obrigações do lar, o marido pode submetê-la à escravidão. Esta servidão pode, inclusive, ser exercida na casa de um credor de seu marido e, durante o período em que durar, é lícito a ele (ao marido) contrair novo matrimônio.” 

No Alcorão, livro sagrado muçulmano, recitado por Alá a Maomé no século VI; na fala de São Paulo, apóstolo cristão no ano 67; e nas prédicas de Lutero, teólogo alemão da reforma protestante no século XVI, topamos, também, com manifestações que reservam à mulher papel de total submissão na convivência social e familiar. Alcorão: “Os homens são superiores às mulheres porque Alá outorgou-lhes a primazia sobre elas. Portanto, dai aos varões o dobro do que dai às mulheres. Os maridos que sofrerem desobediência de suas mulheres podem castigá-las, deixá-las sós em seus leitos, e até bater nelas. Não se legou ao homem maior calamidade que a mulher.” Paulo: “Que as mulheres estejam caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar. Se quiserem ser instruídas sobre algum ponto, interroguem em casa os seus maridos.” Lutero: “O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia.” 

Pois não é que até Aristóteles, filósofo helênico apontado por Dante como “o mestre dos que sabem” (“Il maestro dicolor che sanno”) entra firme nessa onda de insensatez que, ao longo dos tempos, condena a mulher a uma condição servil no relacionamento social! Manjem só a babaquice proferida pelo preceptor de Alexandre, o Grande, no século IV a.C.: “A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior.” Possuído do mesmo desvario, Henrique VII, que acumulava no século XVI as funções de rei da Inglaterra e chefe da Igreja Anglicana, é autor de proclama onde se assinala que “as crianças, os idiotas, os lunáticos e as mulheres não podem e não têm capacidade para efetuar negócios.” 

A Constituição inglesa do século XVIII vinha impregnada desses mesmos xenofóbicos conceitos: “Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços,  perucas e recheio nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado.” Já bem antes desse inacreditável dispositivo constitucional britânico, um “Tratado de conduta moral e costumes da França”, editado no século XIV, fixava severos critérios a serem observados, pela “vítima”, nos casos de um homem ser molestado com “repreensão em público por uma mulher”. “Cabia-lhe, legalmente, o direito de derrubá-la com um soco, desferir-lhe um pontapé e quebrar-lhe o nariz para que assim, desfigurada, não se deixe ver, envergonhada de sua face. E é bem merecido, por dirigir-se ao homem com maldade de linguajar ousado.” 

A mensagem que enfeixa os textos aqui reproduzidos é arrematada, pela leitora que a enviou a este escriba, com os seguintes comentários: “Por esses escritos vê-se quão árduo foi o caminho para as mulheres chegarem aos dias de hoje em igualdade de condições com os homens. Infelizmente, em muitos países islâmicos, a situação das mulheres parece continuar a mesma retratada nesses escritos milenares”. Escritos? Melhor dizendo, estultices milenares.

 

Cesar Vanucci  - Jornalista ([email protected])