Ai de ti, Rio! (3)

Publicado em 26/03/2018 e atualizado em 26/03/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

Ai de ti, Rio! (3)

“A guerra que estamos declarando contra o banditismo no Brasil será, sim, um fator determinante nas próximas eleições.” (Ministro Carlos Marun, anunciando a candidatura Temer à reeleição)

Já está visto que o Rio de Janeiro foi largado à matroca por atordoante inépcia da administração pública. O (des)governo local rendeu-se, de bom tempo a esta parte, a um tentacular esquema de banditismo organizado. As operações mafiosas, processadas em múltiplos escalões, disseminaram-se pelas mais diversificadas áreas, lesando implacavelmente o erário e o interesse social. O descalabro chegou a tal ponto que a intervenção federal, decretada na esfera da Segurança, acabou sendo aplaudida por parte expressiva da sociedade. 

Sem embargo dessa reação, compreensível – como já dito – à luz da indignação e canseira da comunidade face aos problemas e impasses cruciais ocasionados pela avalancha dos desatinos, numerosas e respeitáveis vozes se ergueram em contraposição à decisão do governo central. Não há duvidar sejam, por força dos argumentos alinhavados, vozes realmente representativas de lúcidas camadas do sentimento nacional. 

De acordo com os questionamentos vindos a lume, a intervenção na Segurança carioca foi estabanada. Destituída de planejamento criterioso. Brotou do improviso, engendrada dentro de contexto com indisfarçáveis sinais de vulgar populismo. Sua implicação com arrematado oportunismo eleitoreiro é bastante pronunciada. Nem bem o anúncio da intervenção conseguia alcançar integralmente o domínio público e já solícitos porta-vozes do Jaburu se aprestavam a trombetear, triunfalmente, certos objetivos penumbrosos da manobra articulada em Palácio. Deixaram explícito, sem titubeios, nem tênue resquício de pudor, que após a intervenção, o ínclito Presidente Michel Temer seria forçosamente compelido a dizer desprendidamente ao povo brasileiro que, para o bem geral da Nação, “eu fico”... Noutras palavras, a nos valermos de emblemáticas declarações do Ministro Carlos Marun, titular da Secretaria de Governo, integrante destacado da chamada “tropa de choque” do célebre deputado Eduardo Cunha, “depois do que aconteceu na Câmara (aprovação do decreto de intervenção), faz-se necessária e indispensável a candidatura do Presidente Michel Temer na próxima eleição.” 

Em entrevista à “Veja”, o Ministro acentuou que “o governo é medido pelo êxito de suas ações”. Com a boquirrotice que lhe é peculiar, garantiu que o sucesso “dessa guerra que estamos declarando contra o banditismo no Brasil será, sim, um fator determinante nas próximas eleições”. E que, à conta de tão irrefutáveis elementos de convicção, se tornará imperioso o lançamento do honrado nome do supremo mandatário à reeleição. Isso mesmo, gente boa... 

Esses propósitos inesperados, repentinos, nascidos de cavilosas articulações e de manjado casuísmo, são de molde a convocar a atenção da opinião pública para certas facetas frisantes do comportamento governamental. Recordam, antes de mais nada, que o índice de popularidade de Temer anda tropegamente  ao rés do chão. É, com flamejante certeza, o mais baixo de todo o período pós-redemocratização. Por óbvias razões. 

Ao assumir, após a queda de Dilma, entre outras enfáticas promessas, Temer assegurou que acabaria com a corrupção, estancaria o desemprego, retomaria o desenvolvimento econômico. A redução dos juros extorsivos impostos à cadeia produtiva constituía ponto de honra. O País iria contar, finalmente, com um “ministério só de notáveis”. O número de pastas ministeriais seria reduzido. O jogo do “toma lá dá cá” no relacionamento político partidário e com o Parlamento seria página virada na história. Os brasileiros não mais se constrangeriam com as notas de classificação atribuídas ao País pelas fajutas agências de risco. Deixo para o leitor a tarefa de conferir o rosário de promessas alardeadas. 

Temer enveredou-se, dado instante, pela seara das “reformas”. Trancou-se, onipotente, num monólogo reformista que não produziu nenhum resultado concreto. Escusou-se ao diálogo amplo, geral e irrestrito na magna questão da Previdência Social. Deixou evidenciado, nesse capítulo tão importante, o desinteresse oficial em torno da discussão dos verdadeiros privilégios existentes na atualidade brasileira, representados pelos variados sistemas de remuneração e aposentadoria reservados às castas do marajanato tecnocrático e burocrático. Lançou tímidas ideias de alguma reforma, com o intuito de não fazer reforma alguma. Silêncio de tumba etrusca baixou subitamente sobre as “urgentes reformas”. 

Encurtando razões. Todo mundo, em sã consciência, aprecie ou não o jeito de atuar de Michel Temer, almeja a esta altura do campeonato que a empreitada programada para as plagas guanabarinas logre êxito total. Mas não há como descartar de todo a indesejável hipótese de que ela, a controvertida intervenção, levando-se em conta os cumulativos fatores adversos amiúde detectados na gestão dos negócios afetos ao alto comando governamental, possa produzir dorida frustração na expectativa popular.

Cesar Vanucci -  Jornalista ([email protected])